A caixinha de música de André Bissonet [Daniel Cariello]

Posted on 02/02/2017

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Daniel Cariello*

Foi por acaso que descobri a pequena loja de instrumentos musicais antigos de André Bissonet, localizada pertinho da place des Vosges, na rue du Pas-de-la-Mule. O que primeiro chamou minha atenção foi um velho mandolim, cujo corpo finalizava perto do braço em uma espécie de rococó. Intrigado, parei para observar melhor a vitrine e fiquei ali uns bons minutos, fascinado por aquelas relíquias que nunca havia visto, como um violino fundido com um trompete ou uma estranha espécie de cello, chamada cecilium.

“Nada disso deve funcionar”, pensei comigo mesmo, até a porta da loja se abrir e permitir chegar aos meus ouvidos um som que remetia a outro tempo. Entrei e me espantei ao ver que um senhor com seus 60 e poucos anos tocava um cravo do século XVIII, tão conservado que parecia ter sido fabricado uma semana antes. Eu olhava aquele acervo com muita curiosidade, mas não ousava encostar em objetos aparentemente tão preciosos.

– Pode mexer, se quiser, disse sorrindo o senhor. Arrisquei pressionar o dó mais grave e depois o mais agudo, só pra sentir como é dedilhar uma peça tão antiga.
– Parece afinado, falei.
– Não parece, ele está. Os instrumentos daqui estão sempre afinados.
– É você quem afina?
– Sim, eu sei tocar um pouquinho cada um deles.

Fixei meu olhar incrédulo em uma harpa escondida num canto, meio lançando um desafio. Ele puxou-a para si e dela fez sair uma bela melodia. Depois me encorajou a tentar o mesmo. Satisfiz-me em passar a mão lentamente pelas cordas, mais uma vez apenas pelo prazer de dedilhar uma obra de arte. Agradeci ao simpático senhor e continuei minha caminhada pelo Marais.

Depois desse dia, voltei à loja com certa periodicidade, fosse pelo prazer de entrar ali e escutar sons tão diferentes quanto belos, fosse para mostrar as preciosidades aos amigos e parentes. A visita àquele templo era inevitavelmente acompanhada de um pensamento: “E quando ele decidir se aposentar, quem vai cuidar disso tudo?”.

Na última segunda-feira, levei meus pais para conhecerem o lugar. Dentre as dezenas de violões, alaúdes, pianos, flautas e gaitas, notei que havia uma nova peça.

– E isso, o que é?
– Uma cítara indiana. Mas não uma tradicional. Essa fica deitada no chão e só tem seis cordas, de metal.
– Quanto custa?
– Duzentos e cinquenta, mas faço por duzentos.
– Tá em liquidação? – brinquei.
– É que sexta-feira fecho a loja.
– Vai reformar?
– Não, vou entregar o ponto. Essa semana é a última. Estou aqui há 42 anos e acho que chegou a hora de dar uma descansada.

Fiquei sem palavras. Minha vontade era pedir para ele tocar todos aqueles instrumentos que ainda não havia escutado. Não, era comprar aquela loja com tudo dentro. Não, não, meu real desejo era que ele continuasse sempre por ali, envelhecendo e melhorando, como aquelas preciosidades das quais cuidou tão bem durante as últimas quatro décadas.

Sem saber o que fazer, pedi para ele me mostrar o tal mandolim que me fez parar por ali pela primeira vez. Ele tirou-o da vitrine e começou a tocar e cantar O Sole Mio, entremeando a história do instrumento e a letra da música.

Despedi-me pela última vez do incrível universo de André Bissonnet, desejando-lhe boa sorte no novo caminho.

– C’est la vie, mon ami, c’est la vie! – Respondeu, sorrindo e cantando.

Ao virar a esquina, ainda dava pra escutar a música, ao longe.

 

Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, lançado em 2013 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas