Permissão de localização ativada [Marco Antonio Martire]

Posted on 01/02/2017

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Marco Antonio Martire*

Depois de instalar um desses aplicativos que promovem encontros, agora com base na proximidade entre os candidatos, o passo seguinte é vadiar pela cidade. Pois quanto mais o candidato anda e circula, mais chances de captar o perfil de seu possível par ele tem. A lógica é: cruzou com aquela mulher incrível, se ela também procura por alguém no aplicativo, certamente te perceberá na pista, uma examinada na tua foto é garantida.

Semana passada, com o aplicativo instalado, fui testar a novidade. É claro que ativei a permissão de localização, algo que antes não permitia, por que entregar onde me encontro? Nunca quis que me perguntassem: o que faz aí? Melhor fingir ao telefone que não escutou… você está onde?

Permissão de localização concedida, fui pela cidade a conferir de perto calçadas e monumentos. Não precisava mais admirar constrangido as mulheres lindas, podia ignorá-las com segurança, em minutos seus perfis estariam na tela do meu celular, entregando as melhores fotos, as frases de efeito e até as profissões.

Que maravilha.

Para tímidos como eu, é uma ironia.

Escolhi como destino uma cafeteria internacional, onde se vendem shakes de café. A fila enorme, mas o ambiente de eficiência prometia. No salão de sessenta metros quadrados, cerca de trinta pessoas bonitas se espremiam loucas por um café de cinema. A freqüência era bastante diversificada, perfis para todos os gostos.

Percebi que muita gente conferia o celular, será que já captaram meu perfil? Entrei na fila logo atrás de uma garota de peruca roxa, as mechas picotadas largadas com cuidado sobre a testa. Brincava no celular também. Eu preferi não mostrar o meu, fiz jogo duro. Fui lá saborear o shake.

Meu problema é que estou gordo, mas não havia o que fazer, tinha de provar a torta red velvet, última fatia do balcão, não importa que velha. A caixa entendia do que estou falando, ela me representa: nome em inglês, torta estrangeira, trouxe a última fatia sem estardalhaço. Pôs na minha frente. Depois o copão de shake, decorado com chantilly por cima.

Uma vez sentado, resisti à tentação de conferir o aplicativo. E a caixa me entregara a senha do wi-fi, o que tornava a tarefa de me conter meio impossível: experimentar a velocidade da conexão naquele café era obrigação do programa. Foi difícil, meditação ajuda, acabou que deu certo: sentado à mesa de uma beldade esculpida em gente, preocupada à vera com as novidades do facebook, comi e bebi quase que serenamente.

Quinze minutos depois, terminado o lanche, fui embora. Não me despedi. O sol forte estava doce feito o meu sangue.

No metrô, também não saquei o celular. Eu desprezo o wi-fi do metrô, não sou tão promíscuo assim. Precisava da minha casa, na segurança de minha própria rede as empolgantes candidatas surgiram. Na tela do aplicativo. Mas não consegui ainda nenhuma combinação. Penso no passeio de amanhã, a permissão de localização continua ativada. Será que é muita exposição?

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Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

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