Pequenos donos do mundo [Guilherme Tauil]

Posted on 31/01/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Napoleão não morreu. Quer dizer, morreu há quase duzentos anos, numa ilhazinha muito distante. Mas seu espírito sobreviveu e se espalhou pelo mundo. Seus descendentes espirituais não são mais franceses, nem são baixinhos e muito menos montam cavalos brancos que não são brancos. Mas todos trazem no peito uma herança ancestral: a vocação para ser soberano.

Quando assumem cargos de direção, são facilmente identificáveis – todos temos histórias de um chefe abusivo que distribui broncas desnecessárias. Mas quero mesmo saber daqueles que nasceram com a gana de controlar impérios e trabalham como motoristas, secretárias, garçons, balconistas. Os chefes distribuem ordens, mas o que pode fazer um homem que anseia comandar nações confinado numa portaria?

Incumbido de controlar a entrada e saída dos moradores de um condomínio, o porteiro napoleônico leva seu ofício a sério: se ele não pode ser o senhor da Europa, que seja o soberano daquele portão. E aí começa a agir como bem entende, impondo pequenas dificuldades a alguns moradores de que não gosta.

Você deve saber de pequenos tiranos também à frente das famílias. São pais e mães que adoram um ponto final, às vezes até um de exclamação. “Mas por quê, mãe? Porque eu sou sua mãe. Ah, pai, mas por quê? Porque eu posso!” E fim de papo.

A mesma síndrome acomete o motorista de ônibus que não para no ponto quando alguém dá sinal. Vítima de alguma complicação em seu dia, resolve diluir sua amargura nos passageiros, abusando de seu humilde poder. Se ele, que é o condutor, não está bem, que ninguém mais esteja. Afinal, o cidadão nada pode fazer além de torcer por um motorista sensato no próximo ônibus. A não ser, é claro, que seja uma velhinha.

As senhoras parecem ser o mais eficaz obstáculo aos minitiranos. São capazes de promover súbitos levantes contra o autoritarismo quando se sentem prejudicadas. Não há quem possa contra uma idosa que berra “escuta aqui, meu filho, eu conheço os meus direitos!”. Esta frase é uma convocação geral da nação contra o opressor. É um apelo da senhora, que reforçamos por sentimentos maternais, mas também da senhora democracia, que atendemos por nobreza cívica.  As velhinhas são o inverno russo dos napoleões.

Nós, que não concordamos com os abusos de poder, somos a resistência. E temos que aprender com essas veteranas. Aos poucos, o povo passará a desenvolver suas próprias técnicas defensivas. Prevejo trincheiras e bunkers secretos. Os professores que se deleitam em expulsar alunos sem motivo vão cair na arapuca. Cuidado, garçons que não anotam a parte do “sem cebola, por favor”. Atenção, policiais que oprimem a periferia. Olhem lá, juízes corruptos, taxistas que pegam o trajeto mais longo, cobradores que não compartilham conhecimento. Seus dias estão contados.

Vieram me contar que o filósofo Foucault já tinha escrito sobre os micropoderes. Não uma crônica, mas teses acadêmicas. Quanto a isso, porém, não direi mais nada, até para não perder credibilidade. Afinal, de quem é a crônica? Quem é que manda aqui? Hein?

napoleaoalta

(Ilustração: Rodrigo Terra Vargas) 

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas