Posso explicar [Cássio Zanatta]

Posted on 30/01/2017

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Cássio Zanatta*

Calma, eu posso explicar. Nos mínimos detalhes, nas imensas coincidências, nos absurdos ou talvez fosse o caso de contratar um especialista.

Eu estava bem, só na cerveja, e alguém apareceu com uma cachaça que só tem por aquelas terras. Passei, disse que sou fraco para cachaça (o que é verdade), mas o pessoal insistiu, disse que ficava dois anos num barril de sei lá o quê, não aceitava desfeita e, como eu não queria ofender, aceitei. Sou fraco e não só para cachaça.

Ou foi o Moacir. Não sei o que há com o Moacir. Sempre que me vê, ele enxerga um ombro ambulante e desaba em confidências. Ora é mulher, ora é falta de mulher, ora é trabalho, ora é mulher no trabalho. Eu escuto, me envolvo (me emociono facinho, você me conhece) e aí, já viu, né?

Pode ter sido também o violão. Porque, claro, uma hora aparece o violão. E você acha que ele ataca de sambas-enredos e rocks engraçadinhos? Nada: é Lupicínio e Dolores na veia. Isso quando não descamba para um bolero.

Já sei: foi a lua. Lua cheia, que encheu a noite de seu silêncio (silêncio numas, porque acordou uns galos afoitos). Mas você entende como a lua entontece quem já está meio assim. Nenhuma nuvem para aparecer e encobrir um pouco o luar, devo ser assim um tipo de lobisomem – eu sei, você não acredita nessas coisas, mas devia.

E quando a lua foi dormir, houve um exagero de estrelas. Aquele faiscar, vindo de tão longe, mexe com a gente. Havia uns olhos que cintilavam também, mas sou homem sério, fiquei mirando mesmo foi as estrelas, juro.

Ah, não, sabe o que foi? Uma hora apareceu um pessoal para filmar um comercial de vodka, precisavam de uns extras que bebessem com cara de interessantes, repetiram a cena umas 30 vezes, aí, quando eu fui ver…

Ou foi a pressão no trabalho, uma ingratidão que não se esquece, uma empolgação, uma overdose de tremoços, um descuido, o pastor evangélico gritando no rádio, ter sido feito de bobo.

Talvez o tanto que a gente esconde os sentimentos: quando eles resolvem se revelar, dá um desconcerto que depois, para explicar, fica difícil.

Não, não acho que tenha sido esse calor absurdo. Também não deve ter sido a tontura que esse perfume de laranjeira espalha nessa época. Era início da primavera? – eu nem atinei. Não dá para culpar a crise dos 40, já que eu passei dos 50. Mais provável é que seja de saber de tanta notícia, hoje em dia melhor não saber de muita coisa.

Vai ver, foi aquilo que o médico disse.

Ou seja: não, eu não posso explicar. Falei que podia, mas não. Muita coisa não se pode explicar.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas