Sobre uma porção de coisas [Raul Drewnick]

Posted on 29/01/2017

6



Raul Drewnick*

Aos doze ou treze anos, eu já amava tresloucadamente a poesia. Nessa época, era um amor correspondido.

***

A morte não é uma questão de filosofia. É uma questão de tempo.

***

Mentem os velhinhos que dizem carregar o mundo nas costas. Estas não aguentam nem uma palha.

***

Escrever é um modo que arranjei de ir morrendo aos poucos.

 ***

A caridade pública recolheu e abrigou os sonetos em um asilo. Alguns eram tão velhos que rimavam saudade com quem há de…

 ***

Chega sempre o dia em que o amor nos leva para um canto, avisa que vai nos fazer uma revelação, nos beija com todas as línguas e, acendendo repentinamente a luz, nos mostra, na pausa de uma gargalhada, sua boca sem nenhum dente e seu rosto de bruxa da Branca de Neve.

***

Se o amor for mesmo uma calamidade, como se diz, merece que também se diga ser a mais desejada de todas.

***

Quando Ismália enlouqueceu, os parentes vasculharam a torre, à procura da carteirinha do convênio.

***

O amor às vezes se torna grande demais, incontrolável demais. É quando ele merece o nome e se distingue desses afetos tolos que tentam imitá-lo, essas flores de plástico querendo fazer-se passar por girassóis numa lojinha de periferia.

***

Provem-me, à meia-noite e cinco, que a beleza não existe, e eu não me importarei em morrer à meia-noite e seis.

***

Dizer amor é arriscar-se a ouvir a boca perguntar por que não são tão belas todas as outras palavras.

***

Ele sonha que ela mastiga rosas e vai cuspindo o sumo numa xícara. Quando ela lhe estende a xícara, ele está transformado num sedento bem-te-vi.

***

Quando vejo no espelho este rosto devastado pelo amor, lamento minha tolice mas exalto minha honestidade.

***

Para poder dizer-se minha única amada, a poesia matou minha vida a bicadas.

***

Quem não conhece o doce jugo do amor não deveria se proclamar tão feliz com sua liberdade.

***

A pata velha embriagada de sol grasna como um rouxinol.

 ***

Depois que a primeira pomba despertada acordou as demais, Raimundo Correia não conseguiu dormir mais.

***

Quando o gato começou a cantar, a família acordou aflita e correu para a gaiola do sabiá.

_________

Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas