Cruzadas [Madô Martins]

Posted on 27/01/2017

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Madô Martins*

Dizem que é coisa de idosos, mas sempre gostei de palavras cruzadas e me agrada muito quando alguém me presenteia com uma daquelas revistas específicas, de preferência, nível médio, para que não se perca a diversão em desafios extremos. No jornal diário, quase nenhuma me escapa, a ponto de saber quando, por algum motivo, publicaram uma repetida.

Lembro de aprender a jogar com meu pai, no banco de jardim da casa dos avós. Após o almoço, ficávamos ali, com a página do jornal onde havia o quadrado em branco e preto que lembrava um tabuleiro de xadrez ou damas sobre os joelhos, preenchendo a lápis os vazios com vogais e consoantes. Na verdade, eu apenas assistia, porque começava a aprender a ler. Mas acredito que boa parte do vocabulário de que desfruto tenha sido absorvido naqueles momentos de lazer.

O pai recomendava que, quando chegasse a minha vez, escrevesse sempre a lápis, para poder apagar os eventuais erros. Mas, depois das esferográficas, quem usa lápis? Também nunca colocava acentos ou cedilha, para que, no cruzamento, nenhuma palavra fosse prejudicada. Hoje, ao contrário, cruzam-se ã com ã, é com é, ç onde for necessário. Só não gosto das apelações, como o uso excessivo de siglas, abreviaturas, iniciais e algarismos romanos. Nosso vasto idioma não merece ser tão reduzido.

Houve um tempo em que as palavras cruzadas viraram meu vício. Nas férias de inverno, por exemplo, esgotava a revistinha em dois dias e até chegava a criar alguns desafios, desenhando o quadro e escolhendo os vocábulos a serem substituídos por sinônimos. Quando faltava luz em casa, era o passatempo preferido, na penumbra das velas. E no verão, quando ia à praia sozinha, revista e caneta iam junto e voltavam salpicadas de areia. Salas de espera também combinavam perfeitamente com a atividade e, às vezes, algum outro fã se aproximava, interessado.

Passei parte do gosto para o filho, que um certo Natal produziu, em nosso nome, um cartão de boas festas em forma de cruzadas. Atualmente, falta-me tempo para usufruir esse prazer assiduamente, como antes. Mas ainda me orgulho de quase nunca recorrer àquela linha miúda, de ponta cabeça, onde estão as soluções mais difíceis. Outra satisfação secreta (ou quase) é preencher com facilidade as silábicas ou desvendar aquelas que não trazem enunciado, apenas uma ou outra letra como pista. E, mesmo correndo o risco de ser rotulada como jurássica, aos escritores e jornalistas iniciantes que me pedem sugestões, sempre aconselho a adotar a prática, que enriquece o conhecimento em tom de brincadeira.

Penso que o número de adeptos ainda é representativo. Conheço um encanador ainda mais fanático que eu, para quem os fregueses guardam a página das cruzadas, no jornal de todo dia. De seu bolso traseiro, sempre se sobressai uma delas, que ele vai preenchendo entre um atendimento e outro. E, daquela minha iniciação na infância, lembro com saudade de um dos tios, exímio desenhista também aficionado, que criava desafios para revistas e jornais, na qualidade de colaborador. Suas cruzadas sempre eram ilustradas com elegantes e belas mulheres que usavam casaco de pele e piteiras, longos cílios e uma pinta no queixo, seguindo o modelo das divas da época, desenhadas a nanquim.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas