Cine Memória [Daniel Cariello]

Posted on 26/01/2017

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Daniel Cariello*

Do alto da pequena ponte corcunda vi o letreiro de néon, “Drive In” – indicando a entrada do último cinema do país onde se assiste ao filme de dentro do carro –, e imediatamente fui tomado pela minha infância. Há uns bons trinta anos não ia àquele mágico lugar, mas a sensação era como se tivesse acabado de sair dali. Fiquei um longo tempo parado, observando o luminoso, até alguém buzinar atrás e me obrigar a seguir para a bilheteria.

– Uma inteira, por favor.
– O menino paga meia?
– Que menino?
– Aquele no banco traseiro, ué.

Olhei pra trás e levei um susto. De onde surgiu aquele garoto que eu não vi entrar no carro? Já ia mandá-lo descer, no entanto, seu sorriso me trouxe um estranho sentimento de familiaridade. Deixei ficar.

– Ele paga meia.

Parei o carro em frente à tela e me virei pra perguntar ao menino o que fazia ali, mas ele já havia pulado para o banco do passageiro e logo puxou uma conversa.

– Você se lembra de quando vimos aqui A Espada Era a Lei? Nesse dia aprendi quem era o Rei Arthur. E aprendi também que se a gente deixar o farolete do carro ligado, o garçom vem e nós podemos pedir batata frita pra ele.
– Acho que você está enganado. Esse filme eu vi há muito tempo, bem antes de você nascer. Eu devia ter…
– Nove anos.
– Isso mesmo! Eu me lembro de tê-lo visto com…
– Uma tia.
– Como você sabe? Foi a mesma que me trouxe pra ver…
– Alice no País das Maravilhas.
– Ei, que brincadeira é essa? Quem é…
– Você!

Esfreguei os olhos para observar bem aquela criança com blusa do Flamengo, “É a 10, do Zico!”, e notei que tínhamos o mesmo olhar, a mesma maneira atropelada de falar, o mesmo cabelo despenteado. Até a marca de queimadura nas costas da mão direita era igual. Ainda assim eu me recusava a acreditar naquele encontro fantástico. Fui averiguar.

– Se você é realmente quem diz ser, então me diga: como foi seu dia hoje?
– Você não vai acreditar! A Adriene me pediu em namoro. Vou casar com ela e ter dois filhos, já combinamos tudo.

Fechei o olho e me lembrei da minha primeira paixão e de um namoro que passou rápido, assim como passa rápido a infância, mas me marcou para sempre. E agora, quem estava curioso era o menino.

– Conta! Você se casou com ela? Quer dizer, eu me casei? Nós… Ah, você entendeu.
– Tudo o que posso te dizer é que vamos sempre pensar nela com muito carinho. O resto você vai descobrir por conta própria.

Então o filme começou. Do meu lado, os olhos de criança do Daniel de nove anos fixavam a tela sem piscar. Acendi o farolete e pedi ao garçom uma grande porção de batatas fritas. Sem ketchup, porque nós não gostamos.

* Esse texto faz parte do livro Cidade dos Sonhos, lançado em 2015 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas