Os donos da cidade (sobre taxistas) [Elyandria Silva]

Posted on 24/01/2017

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Elyandria Silva*

As cidades, grandes ou pequenas, são acompanhadas de perto por quem mais conhece  suas artérias, órgãos e membros – os taxistas. Ano passado escrevi uma crônica onde eu dizia admirar os homens do lixo. Hoje, parafraseando a mim mesma, digo “Eu admiro os taxistas” porque é difícil não ter assunto para uma crônica ou uma história para contar depois de ter andado de táxi, depois de ter conversado com um taxista ou depois de simplesmente ter ficado quieto no banco de trás observando tudo. Como no ditado também penso que “o diabo mora nos detalhes”, então, entrando num táxi é possível saber se o dito cujo ali mora ou não. Tenho problemas com taxistas que fumam porque o cheiro de cigarro me deixa muito enjoada fazendo com que uma simples corrida se torne um pesadelo ou acabe em acidente, em outras palavras, posso vomitar dentro do carro.  Cheiro bom, organização, música e o comportamento – no caso de Jaraguá do Sul tem o ar condicionado, claro – do taxista formam o mosaico dos detalhes que causarão a boa impressão e nos farão pagar a corrida e sair satisfeitos.

Lembro-me que entrei no táxi, me acomodei e informei o destino, era um pouco longe, meia hora de corrida, no mínimo. Poucos segundos depois ele, o taxista, já se destacava dos outros. Na parte traseira dos bancos uma mini biblioteca, no banco esquerdo livros, tinha até de filosofia; no banco direito, revistas e tocava um cd de bossa nova. Carro limpo, o ar na medida certa, pouca conversa, educação. Senti um dó quando a corrida acabou. Também teve o que tinha DVD e nos ofereceu opções de estilo musical, chique não? Ah, também me recordo do que, domingo de tarde, calor infernal, sem ar condicionado e quando entro ele ouvia jogo de futebol na radio, no último volume, foi o trajeto inteiro xingando ou vibrando de acordo com o que o comentarista dizia. Horrível! Isso tudo aconteceu em São Paulo, faz algum tempo, mas todos me vieram à mente depois que assisti uma entrevista semana passada sobre esses que são os donos da cidade. Eu os admiro porque ficar horas dentro de um carro dirigindo, saber centenas de trajetos, decorar ruas, esquinas, avenidas e colecionar rostos através de um pequeno espelho é trabalho para artesão de volante, para herói de curva, não é trabalho para qualquer um, é coisa séria, coisa bonita essa de levar gente para lá e para cá. E mais bonito ainda é quando a taxista é mulher, aí sim a velocidade do heroísmo aumenta.

No final de tudo o que não gosto é entrar em táxi sem música, silencioso. Fico esperando quieta, o radio me olhando, eu torcendo para que o taxista lembre de ligá-lo e, até que não agüento e logo pergunto: “O senhor pode ligar uma musiquinha?”

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas