Cassandra [Daniel Russell Ribas]

Posted on 23/01/2017

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Daniel Russell Ribas*

Terça-feira, dia 31 de agosto

Hoje, conversei pela primeira vez com o paciente da ala 22. Embora mais dócil que ontem, ainda se mostrou agitado e agressivo. Recomendei o aumento de sua dosagem para 2cc.

Ainda não pude descobrir nenhuma informação concreta sobre este homem. Sua muralha delirante está bem erguida e levará algum tempo até conseguirmos derrubar os primeiros tijolos. Ele apresenta, no entanto, certas características não comuns a sua condição. A primeira e mais espantosa é que o paciente está ciente da realidade social. Ele afirma com certeza dados coerentes. Apesar disso, mantém persistente em sua teoria de que veio do futuro. Apesar disso, seu comportamento preenche os demais requisitos de esquizofrenia paranóide: alucinações auditivas e visuais, paranoia e momentos reservados alternados com agressividade.

O paciente, que me referirei como José, foi admitido recentemente. Os policiais o encontraram andando nu pelas ruas do centro e gritando absurdos. Estava desorientado e agressivo. Como um profeta trágico, dizia vir de outra época e que era seu dever nos alertar para um apocalipse iminente. Após brigar com os oficiais, foi preso. Devido a ausência de documentos e a desavenças severas e imediatas com outros presos, foi transferido para cá. O médico que o recebeu me informou pela manhã que o paciente ainda estava agitado e agressivo quando chegou, gritando sobre o iminente apocalipse e um desejo insaciável por suco de laranja.

Logo em seguida, almocei na cantina. Fiquei só na salada de novo. Preciso emagrecer. Pensei no que meu colega tinha dito e pedi um suco de laranja. No entanto, minha vontade por doces prevaleceu e comi duas paçocas e uma barra de chocolate. Finalmente, fui vê-lo.

A percepção do paciente se destacou logo, pois, assim que me apresentei, ele afirmou que eu tinha acabado de beber suco de laranja. Quando perguntei como percebera, dissera que sentia o cheiro. Comecei a questioná-lo quanto sua identidade e origem. O paciente afirmou que, embora não se lembrasse de seu nome, conseguia rememorar quem era. “José” era um gerente de supermercado até o final de 2010. Não pude esconder dele o quão intrigado fiquei. Em geral, portadores deste distúrbio não costumam colocar sua fantasia tão colada a realidade. Ele vivia sozinho e não tinha família. Em suas palavras, dividia seu tempo livre entre a televisão, os bares de seu bairro (ele não lembra qual seria) e masturbação. Quando perguntado por que havia destacado esta última parte, ele respondeu que realmente não fazia mais nada além disso. “Personalidade isolada, antissocial”, anotei na prancheta.

Sua história começa a ganhar forma em novembro. “José” afirma que estava se limpando com um jornal velho quando leu um anúncio: “Precisa-se de voluntários para experiência. Preferência por pessoas sem família. Paga-se bem”. O paciente, então, entrou em contato com o local (cujo endereço ele não recorda). Lá, ele teria sido submetido a uma “cricrixinização”, o que depois compreendi como “criogenização”. Em uma sala vasta, contendo câmaras largas e brilhantes, dois homens lhe teriam explicado que a experiência se desenrolaria num período de dois anos. A ele teria sido dito que tudo que precisaria fazer era assinar um formulário, entrar em um dos “casulos brancos” e dormir. O pagamento, lhe disseram, seria feito na íntegra quando o experimento fosse finalizado.

“José” entrou na câmara. Ele se lembra que estava frio e, então, uma porta de vidro teria fechado, o lacrando no interior do objeto. O paciente, com medo, começou a bater nas paredes, exigindo para sair, pois precisava usar o banheiro. De repente, ouviu um som semelhante a um caminhão de lixo parando e uma nuvem branca, cheia de “vidrinhos que grudavam na pele”, o envolveu. Então, ele apagou.

Quando acordou, “José” estava no meio de um deserto. Ele não sabia se era noite ou dia, pois uma gigantesca nuvem preta pairava no céu, como o que parecia ser um enorme redemoinho escuro invertido tapando os céus. O horizonte e a terra estavam vermelhos. Havia algumas raízes de vegetais azuis no chão e nenhum ser humano à vista. “José”, de repente, teria sido abordado por duas baratas de 2 metros de altura. As baratas tinham listras brancas e verdes pelo corpo, “como o uniforme do Palmeiras”. Elas também possuíam apenas quatros braços no total, o que o paciente estranhou. Ele teria sido levado para um enorme local de ferro no meio da paisagem desértica. Lá, foi amarrado de bruços a uma mesa de cirurgia, “bem fria”, e “sodomizado com um bastão fino de ferro”. Após a ferramenta ser retirada de seu orifício, sentiu uma sensação relaxante e adormeceu.

Quando acordou, estava no Centro carioca na época atual, nu e desorientado. Após ser agredido por uma senhora, se sentiu tonto e ouviu o barulho de uma interferência de rádio na sua cabeça, som que escutava quando o vi. “José” se lembrara, em seu delírio, que os alienígenas talvez não tivessem abusado sexualmente dele, mas inserido um chip em seu cérebro que apagara suas memórias e serviria de receptor. Assim, os seres espaciais coletariam informações para uma eventual invasão ao planeta Terra.

Sorrindo, percebi que meu horário estava terminando e me despedi. Estava na saída quando “José” me disse:

– Doutor Ronaldo, não se preocupa. Daqui a pouco, o mundo acaba. Melhor comer logo essa barra de chocolate enquanto pode. Eu, o máximo que recebi, foi esse chip desgraçado e uma baita hemorróida. Dona Márcia não precisa saber.

Eu não tinha dito meu nome. Nem o da minha mulher. E eu sei que ninguém mais poderia ter feito, pois seria uma infração séria de segurança. Quando saí do hospital, olhei para o céu escuro e vi uma luz brilhante. Ela estava parada, mas, de repente, fez um movimento brusco em Z e sumiu no horizonte opaco da noite. Parei em frente a um vendedor na porta da universidade e comprei duas barras de chocolate e uma paçoca.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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