Uma cidade cosmopolita [Luís Giffoni]

Posted on 21/01/2017

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Luís Giffoni*

Entro correndo na linha de metrô Piccadilly, em Londres. Vagão cheio. Dou sorte, consigo um assento. Olho ao redor. Sinto-me em outro mundo. Vejo duas mulheres com apenas os olhos de fora, cobertas de preto, conversando numa língua sibilante. Ao lado delas, há turbantes masculinos para todos os gostos. Vestidos vistosos, que tocam o chão, trazem rosados, amarelos e turquesas à sisudez do inverno. Chamam a atenção os chapéus tipo Carmen Miranda, sem as frutas, é claro.  Um rapaz com quipá e trancinhas balança a cabeça sem parar. Um homem alisa os bigodes do século 19, recurvados até as maçãs do rosto. Outro, europeu do Norte, louro e de olhos azuis, lembra os neandertais com os quais miscigenamos – dos quais eu desconfio também ter herdado muitos genes. Um bando de jovens com calças rasgadas e cabelos raspados junto às orelhas, prováveis poloneses, ri sem parar.  Um sujeito troncudo, a face achatada, abre a matula de biscoitos caseiros para dividir com os filhos. Vários chineses conversam, felizes com suas sacolas de compras à mão, só de marcas famosas. Noto tipos que nunca vi, com gengivas pretas ou íris vermelhas. Seria algum truque ou me transportei a outro planeta? Estou no trem do Harry Potter ou num bar de Guerra nas Estrelas? Não, continuo aqui, com os pés na Terra. Para comprovar, ouço um casal falando inglês, com o sotaque típico local.

Londres é, de longe, a cidade mais cosmopolita que conheço. O mundo se encontra aqui. Há oportunidades para todos. Inclusive para chefiar a prefeitura, atualmente ocupada por um muçulmano, filho de paquistaneses. Na Imigração, quando cheguei, apenas funcionários descendentes de asiáticos e africanos coordenavam a entrada de visitantes. Não é à toa que os refugiados buscam tanto esta cidade. Se sentirão um pouco em casa, mesmo estando no estrangeiro. Aqui conviverão com compatriotas, gente que já se adaptou. Conheço um porteiro do Zoológico, somaliano, muito gentil com minhas netas sempre que lá apareço com elas. Gosta de conversar. Casou-se com uma sueca quando morou em Estocolmo, escapando da fome, e têm três filhos. O taxista que me trouxe do aeroporto é eritreu. Fugiu da guerra. O dono da mercearia é português, escapou da Revolução dos Cravos e vende excelentes vinhos alentejanos. Também tem pão de queijo e batata palha de Minas Gerais. Numa rua aqui perto, há um restaurante brasileiro, que se anuncia com “tapas”, caipirinhas e mulatas do Carnaval do Rio. No pub ao lado de casa, trabalha uma coreana. Na outra esquina, no pub que só toca jazz aos domingos, o Princess of Wales, muito animado por sinal, um dos músicos é dinamarquês. Quando ando ao longo do canal do Regent´s Park, encontro centenas de muçulmanos, de muitas raças e vestimentas, a caminho de sua bela mesquita. Na escola de minhas netas, há japoneses, italianos, espanhóis, portugueses, alemães e, é óbvio, nativos.

Podem reclamar dos londrinos, dizer que são esnobes com os estrangeiros, às vezes discriminadores. Deve ser verdade. No entanto, nenhuma cidade se deixou tomar tanto pelos outros países e, de uma forma ou outra, acatá-los. Enquanto na França se discute se as mulheres devem ou não usar a burka, aqui elas a usam sem problema. Enquanto o Trump descrê dos islâmicos, aqui vi um deles exigir seus direitos e ser indenizado numa loja onde foi roubado. Enquanto no Brasil ainda se fazem campanhas pela integração  dos negros, aqui isso é passado. Aliás, a escravidão no Brasil começou a acabar quando os ingleses passaram a perseguir os navios negreiros. Foram dos primeiros a abolir a escravidão, embora tenham tido recaídas posteriores, na Índia. Aprontaram por lá. Como aprontaram.

Se um dia você quiser conhecer a diversidade humana, deve vir a Londres. Aqui todos damos as caras. Somos tão variados que, às vezes, alienígenas passam por terráqueos. E nem desconfiamos. Para provar, basta tomar a linha Piccadilly. Acho que havia pelo menos uma dúzia de ETs por lá.

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas