Inconsciente e polvo [Rubem Penz]

Posted on 20/01/2017

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Rubem Penz*

Há um exercício de escrita criativa cujo gatilho é particularmente interessante. Coisa simples: pegue um dicionário – ou um livro, revista também serve – e abra numa página aleatória (algo parecido com a ordem do mágico para escolhermos uma carta do baralho). Depois, leia nesta página a primeira palavra que salta à vista. Por exemplo, inconsciente. Escreva a palavra no alto da página em branco. Da mesma forma, faça correr pela almofada do polegar as folhas do dicionário novamente e, súbito, pare outra vez. Leia a palavra que se oferece aos olhos e anote bem ao lado da primeira palavra. Polvo.

Inconsciente e polvo.

“Faça uma crônica que relacione estas palavras”, diz o enunciado do exercício. Elas devem aparecer no texto, mas não serão, necessariamente, o título da crônica. Não estão proibidas de sê-lo, óbvio. Sua função pedagógica é provar a tese de que a criatividade é herdeira direta dos problemas, dos obstáculos, dos dilemas, das complicações, do improvável. Dos desafios. Enquanto estamos absorvidos pelas ações corriqueiras, a criatividade adormece placidamente. Quando nossa vida é ordinariamente previsível, o sono é longo e profundo, a ponto de esquecermos que a criatividade está em casa, que precisa de sol, alimento, carinho.

Inconsciente e polvo.

Gente, o acaso é mestre. Em nenhuma das vezes em que apliquei este exercício (e garanto que o fiz em diversas oportunidades) o acaso faltou comigo. Ao contrário, como agora, ofertou termos relacionáveis, quando não perfeitamente conexos. Num átimo, descortinou linhas de raciocínio capazes de fazer a mente embarcar para diversos destinos, edificou pontes, limpou veredas. Indicou um, ou muitos caminhos. Duas palavras saídas de páginas distantes, quase como se estivessem em países diferentes e, por obra da ventura, veem-se sentadas lado a lado num trem. E passam a conversar. Do papo, pode nascer namoro ou amizade. Conflito, tese, recordações. E outras, muitas outras palavras.

Inconsciente e polvo.

Jogo que você, leitor, já teve sua própria criatividade despertada pelas palavras que o dicionário me ofereceu para fazer a crônica. Aliás, elas caem na categoria de “conexas”, quase fáceis demais. Pois é: quando recebo alunos nas turmas de oficina literária, tudo gira em torno dos desafios e, a partir deles, nos livramos do ordinário em marcha. Reconheço importância vital das rotinas na segurança, na previsibilidade. Desde que isso tudo não entorpeça nossa criatividade. Se um oficinando terminar o curso sem ler e escrever melhor – improvável –, ao menos terá por lucro o despertar da imaginação, e o encanto de saber-se tão criativo quanto a autoestima permitir. Inconscientemente, os tentáculos do polvo chamado inspiração terão abraçado um dos mais nobres objetivos do curso.

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* Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas