Para estufar esse filó [Daniel Cariello]

Posted on 19/01/2017

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Daniel Cariello*

Um dia, o telefone toca.

– Daniel, vai fazer o que quarta-feira que vem, ali pelas três da tarde?

Como todo cara que tem tempo livre à beça, sempre acho que não tenho nenhum.

– Putz, vou ao dentista.
– Mas você tinha me falado que o dentista era na sexta.
– Pois é, mas na quarta já começa a preparação espiritual, sabe?
– Bom, então tá. Vou arrumar outra pessoa pra pelada com o Chico Buarque.

Deu um “tchuns” na minha cabeça, seguindo de um “tchans” e de um “ziriguidum”. Achei que tava ficando doido.

– Cumequié? Futebol com o Chico Buarque?
– Isso, aquela pelada que tinha te falado, em La Défense. Tem uma vaga sobrando. Mas vou ligar pro…
– Vai ligar coisa nenhuma. Quarta-feira, três da tarde, tô lá.

E só aí me lembrei que havia bem uns oito anos que não chutava uma bola. Desde que o Felipão cometera duas injustiças e não convocara o Romário e eu para a Copa de 2002. Ali decidi pendurar o Kichute e tentar esportes menos frustrantes, como corrida de pombos e lançamento de atum.

Pois bem. Na quarta-feira, no bat-local e na bat-hora marcados, já havia algumas pessoas, mas não vi o Chico. Deve chegar de helicóptero, tipo o Papai Noel no Maracanã, pensei. Ou então com batedores da polícia abrindo caminho, ou de barco pelo… No meio do meu devaneio, alguém me cutuca e apresenta um sujeito de short e chuteira, pronto pro jogo.

– Daniel Cariello, Chico Buarque. Chico Buarque, Daniel Cariello.

Eu havia pensado em várias coisas para dizer nesse momento, imaginado todas as possibilidades. Tinha preparado piadas, frases inteligentes, postura blasé, citações de Platão e o escambau. Uma delas, a boa, seria acionada na hora das apresentações. Só não havia previsto o imprevisto. E acabei dizendo a coisa mais estúpida.

– Chico Buarque? Acho que já ouvi falar…

Que imbecil eu sou, falei pra mim mesmo. Cretino, cretino!

Enquanto me recuperava da gafe, as equipes foram divididas, seis de cada lado. Chico e eu ficamos em times opostos. Logo no início da partida alguém passa a bola pra ele, que vem em minha direção.

– Vai lá, Daniel.
– Eu? E faço o quê?
– Marca em cima.
– Uai, e pode?

Podia. Fui. E tomei a bola.

– Desculpa, foi sem querer.

Não sei se era perseguição pelas asneiras que eu havia falado, mas ele vinha atacando sempre pelo meu lado. Ou seja, eu precisava marcá-lo, era minha tarefa. E se eu fizesse uma entrada mais dura? Já imaginava as manchetes dos jornais – todos os jornais – do dia seguinte: “Campeão mundial da idiotice quebra Chico Buarque em partida de futebol. Músico nunca mais poderá tocar violão”.

– Ei, vamos trocar. Você fica na direita e eu na esquerda. Jogo melhor pelo lado de lá. – Propus a um companheiro de equipe, mentindo descaradamente, pois jogo igual, igualmente mal, em qualquer posição.

Imaginando que a partida não duraria mais do que 30 ou 40 minutos, dei pra correr tudo o que podia. Alguns elogiaram minha capacidade de me desmarcar, mas mal sabem que fugia era da bola. E ela, teimosamente, sempre acabava nos meus pés. Acabava mesmo, pois qualquer possibilidade de jogada morria ali.

Aí passa uma hora, uma hora e vinte, e nem sinal do fim do jogo. Enquanto Chico Buarque deslizava feito uma gazela, eu não tinha mais força nem pra ficar em pé. Apesar de mim, o placar nos era favorável: 5 x 4.

– Quando termina? – Perguntei.
– Quando a gente estiver ganhando – Alguém do outro time respondeu.

Achei o critério justo. E juntei as últimas energias para “dar o melhor de si e ajudar a equipe”. A equipe deles, no caso. Pouco depois, Chico marcou o gol de empate.

– Bom, vamos parar, né? – Ele mesmo sugeriu. Ninguém discordou.

Pronto! A invencibilidade do Paristeama, a filial francesa do Politheama, estava assegurada. Se a minha vaga na pelada também estiver, vou fazer sempre o meu melhor para isso se manter. Não importa em que equipe jogue.

Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, lançado em 2013 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas