Desacontecimentos [Guilherme Tauil]

Posted on 17/01/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Eu devia ter uns cinco anos quando me desentendi com um colega de escola e lhe dei um tapa na cara. Tivessem registrado a cena, a sequência de fotos seria mais ou menos assim: a primeira mostraria o rapaz com o rosto virado, minha mão colada em sua face e seus óculos no ar; depois, um close nas lentes desprendidas da armação e, por fim, um olhar não de raiva ou dor, mas de completo desentendimento.

Ele me encarou com tanta sinceridade que me desmontou por completo. A minha reação foi congelar, como se eu é que tivesse levado o tapa, enquanto ele calmamente recolhia os despojos da batalha – pegou seus óculos, tentou encaixar as lentes, não conseguiu e foi pedir ajuda à professora. Eu preferiria que tivesse me dedurado, mas tudo o que fez foi aguardar o reparo dos óculos enquanto forçava a vista míope, sem compreender a violência que acabara de sofrer.

Desenterro esta peleja infantil porque o olhar incrédulo do colega, hoje amigo, me impactou tanto que talvez eu deva a ele meu ímpeto de lutar por um mundo menos injusto, de me opor às opressões, sem que ele jamais pudesse desconfiar disso.

Trata-se de um daqueles fatos bestas que nos marcam profundamente. Mesmo esquecidas, essas ocorrências discretas são indispensáveis à lembrança, pois sustentam, como colunas, o templo das reminiscências.

Os grandes acontecimentos ocupam lugar privilegiado neste templo, porque são, oras, acontecimentos. Existem para ser lembrados. Em torno deles giram senhas de banco, vantagens que contamos, aventuras narradas à mesa. Não servem para papo de bar nem dão boa crônica. Para isso existem os desacontecimentos, miudezas injustiçadas que não constam em biografias.

Posso afirmar, por exemplo, que parte do meu caráter se formou com as meias que me davam de aniversário. De algum modo, me instigaram a ser uma criança melhor, na esperança de que assim passaria a ganhar brinquedos em vez de meias. Há lições de vida em toda parte. Um colega aprendeu a manipular pessoas torturando formiguinhas. A primeira vez que uma amiga se deparou com a amargura do arrependimento foi depois de jogar sal numa lesma. Outra, em Paris, só se deu verdadeiramente conta de que estava longe de casa quando tentou pedir um salgado em francês e não conseguiu. À falta de coxinha, pôs-se a chorar com saudades do Brasil.

O oposto também acontece: às vezes passamos por grandes experiências que não desencadeiam muita coisa. Mesmo já tendo velado alguns parentes, só compreendi o significado da morte quando me deparei com um bezerro deitado, numa fazenda. Achei graça no bicho dormindo, me aproximei curioso e, depois de espantar suas moscas e encarar aquela língua bovina entregue à força da gravidade, entendi o que se passava. De um segundo para o outro, aprendi a lição: a morte não diferencia vaca de bezerro, deixa suas vítimas com essa cara besta, e é melhor eu me cuidar. Impressionado, fui noticiar o óbito ao fazendeiro, que me ensinou como funciona o mundo dos negócios ao mandar, muito indiferente, que os funcionários retirassem a carcaça – para ele, apenas um prejuízo, não uma fatalidade.

De estímulo em estímulo, a gente vai se construindo. E a consciência deste aprendizado às vezes nos pega de surpresa. Eu nunca imaginei que comprar sapatos pudesse me emocionar. É que a vida toda meu avô manteve uma sapataria no centro de Taubaté, fundada por seu pai, que antes de ser comerciante foi sapateiro. Das sandalinhas de bebê aos chinelos número quarenta e dois, passando pelo tênis de luzinha, foi a Sapataria Popular que me forneceu sola para gastar. Até que precisei entrar em outra loja, na contramão da minha genética, porque, depois de oitenta anos de atividade, a sapataria de meu avô fechou as portas em um 29 de fevereiro, dia que custa tanto a acontecer. Mais que provar o calçado de outro fornecedor, provei um sentimento estranho de que há um fim para tudo.

Foi assim que aprendi que alguns bezerros não chegam a desmamar, as sapatarias abrem e depois fecham, o dinheiro não sabe o que é sensibilidade, um tapa pode deixar marcas além da pele, as coisas vêm e vão – às vezes para nunca mais.

desacontecimentos_badrequest(Ilustração: Rodrigo Terra) 

 

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas