Paulo Mendes Campos: anjo bêbado e experimentador

Posted on 15/01/2017

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De todos os cronistas tradicionais, ou, pelo menos, daqueles que se costuma reverenciar como mestres do gênero, certamente é Paulo Mendes Campos quem mais experimentou. Ele até faz aquela crônica típica, um relato bem-humorado, às vezes lírico, de um fato banal do cotidiano, mas esta não era a única forma que encontrava para preencher o espaço da crônica. Por vezes, ele o preenchia com aforismos, pedaços de histórias, reflexões isoladas. Não é à toa que o seu livro “O anjo bêbado” (Sabiá, 1969), o quarto de crônicas, conta com uma seção chamada de “Exercícios” e outra chamada de “Experiências”.

Neste livro, as experiências são textos inteiros, únicos em seu tema, às vezes únicos também em parágrafos, em que Paulo Mendes Campos constrói o seu ritmo de forma poética. Ele pode fazer, por exemplo, um texto inteiro listando pessoas que são “presidiários da ternura”, e que “andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre”. Pode inverter a história de Kafka e fazer uma crônica inteira com base neste início: “Ao acordar num oco de pau uma bela manhã, um inseto viu-se transformado em homem”. Pode colocar em sequência notícias de jornal, frases de filósofos e profecias de Isaías, tudo “significando morte”.

Ou ainda fazer uma crônica em que as frases são praticamente versos, como “Prosa Primitiva”, e incluir umas que são, de fato, verso do começo ao fim, como “Poema de uma tradução” e “Letra de choro para Lúcio Rangel”. Pode pintar um impressionante painel do que foi a década de 1920-1930, relacionando o que de mais importante acontecia no mundo naquela época. E há ainda textos que estão bem mais próximos do ensaio do que da crônica, como o que faz sobre a juventude – tema sua predileção, também há crônicas sobre a velhice e a maturidade.

Um estudo sobre a nova mulher. Outro sobre a morte de Kennedy. Uma proposta que divide a humanidade em três categorias: bandeirantes, funcionários e angustiados. A Ilíada, a Odisséia, escritas por um Homero que não poderia ser cego. A vida de Walt Whitman esquadrinhada. E a poesia, acima de tudo a poesia, o poeta que, mesmo abstêmio, costuma ser um anjo bêbado. Há homenagens, a Sérgio Porto, a Mario Quintana, a Fernando Pessoa, a Guimarães Rosa e a Maria José – mamãe. Seus exercícios também o são de autoconhecimento, um mergulho na sua própria alma, seus espaços vazios, suas contradições contundentes. O bar, claro, não podia faltar o bar, essa casa kafkiana, as histórias de botequim Sobressaem-se a sua cultura, o seu raciocínio, sua sensibilidade social, há mesmo momentos em que quem parece estar falando é o seu amigo Hélio Pellegrino – tudo isso Paulo Mendes Campos fazia e experimentava no espaço da sua crônica.

Henrique Fendrich

anjobebado

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