Miudezas no balcão [Raul Drewnick]

Posted on 15/01/2017

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Raul Drewnick*

O sexto sentido anda desconfiado de que os outros sentidos conspiram contra o seu reinado.

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A inveja literária às vezes atende pelo singelo nome de admiração.

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O truque de Mario Quintana consistia em transformar a poesia em tudo e tudo em poesia.

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Em qualquer arte, é comum confundir-se enfeite com sofisticação.

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Reconhecimentos tardios não costumam levar ninguém a Estocolmo, e Deus, que se saiba, não faz parte de comissão do Nobel.

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O romancista coloca-se na pele de personagens que fazem tudo, realizam tudo, conquistam tudo que ele sonha fazer, realizar e conquistar. O poeta escolhe para representá-lo quem possa ser derrotado, aniquilado e ultrajado como ele gostaria de ser.

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Nosso fracasso é simples de explicar. Nós nos damos muita importância; os outros, nenhuma. Os dramas, na vida ou no teatro, dependem mais da colaboração e da boa vontade do espectador que do empenho dos personagens.

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Corre-corre é um substantivo duplamente apressado.

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Shakespeare era capaz de transformar em protagonista o mais inexpressivo dos personagens.

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Carregar o mundo nas costas não é nossa obrigação. Mas nós o carregamos, por ostentação.

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Um passarinho pousando silenciosamente num fio pode não significar nada, mas dá sempre a impressão de que a natureza conspira para mais um haicai.

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Um poeta de verdade não conhece o nome de todas as estrelas, mas trata cada uma delas como se falasse com uma menina, hoje moça, conhecida desde o tempo do curso primário.

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O melhor papel que desempenhei na literatura foi o de leitor.

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Ambição: escrever como Machado de Assis e ganhar como Paulo Coelho.

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Se o amor fosse um remédio, sua bula teria meia folha de prescrições e três e meia de contraindicações.

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A beleza há de ser sempre o nosso pretexto. Devemos invocá-la de tal forma, com tanta ênfase, que nossos pecados artísticos sejam relevados antes que precisemos pedir perdão.

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Quem disse pela primeira vez que todo homem está sujeito a erro pode ter sido também quem criou a máxima segundo a qual não há regra sem exceção.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas