Derretendo [Madô Martins]

Posted on 13/01/2017

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Madô Martins*

Nunca vi tantos adultos com brotoeja. Nunca dormi com o ventilador no máximo, diretamente voltado para a cama a noite inteira. Nunca tomei tantos banhos de mar, indiferente à poluição, aos bagres mortos que têm ferido banhistas e arraias vivas, perdidas na beira d’água. A garrafinha com água e a toalha de mão são acessórios constantes, na bolsa de toda mulher. E ainda nem chegou fevereiro!

O neto de 11 meses também sofre. Passa o dia com o cabelinho molhado, de tanto suor, já que, nessa idade, há energia de sobra para gastar, mesmo sob 40 graus. O filho chega do serviço com a camisa ensopada, a nora só sai de casa quando o sol começa a baixar.

Mas eu, agitada por natureza, vou à praia logo cedo – até as 11, no máximo – e à tarde gasto as sandálias em passeios, compras ou compromissos, meio zonza, é verdade, porque o calor parece derreter corpo e mente.

Proponho piquenique na prainha do outro lado do mar, mas ninguém se dispõe a ficar horas na areia escaldante. Então, ir ao cinema vira rotina, por causa do ar condicionado, sem o agito dos shoppings e agências bancárias, que muitos procuram para se refrescar.

Perseguimos, ansiosos, as melhores horas do dia: logo ao amanhecer, quando o sol ainda não apareceu e existe alguma brisa, e ao anoitecer, depois de um por do sol geralmente espetacular. Vênus, então, reina majestosa no céu, prenunciando outro amanhã ardente.

Ah, e ainda existe a chuva da tarde, que às vezes é só ameaça. Lá pelas quatro, o céu fica escuro, repleto de nuvens carregadas. Se chove, temos a ilusão de que o ar ficou mais fresco, mas só até o sol voltar a brilhar. Se nada acontece, o calor fica estagnado sob nossas cabeças, como se a chuva fosse uma bolha prestes a explodir, mas não se rompe.

Tudo passa por um grande teste, neste verão absurdo. Não se sabe quanto resistirão os aparelhos de ar condicionado, as máquinas de lavar, os chuveiros, as geladeiras, o fornecimento de energia para tudo isso. Não se sabe quanto resistiremos nós, os ambulantes, feirantes, lixeiros, garis, frentistas, a água potável, os animais domésticos… Sobrevivendo bem, só os mosquitos e as brotoejas.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas