Karras, o carrapato presidencial [Carlos Castelo]

Posted on 11/01/2017

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Carlos Castelo*

Hoje acordei com o cheirinho da lavanda que eu gosto.

Ele, animado, cantava uma música sertaneja em frente ao espelho do banheiro, coisa que não acontecia há um tempão.

Espreguicei-me e fiquei ouvindo aquela voz gutural tentando entoar um verso decentemente. Que batalha! Quando chegava no refrão, é o amoooooor!, desandava pra valer. Que mistura louca, lembrava um Tom Waits entalado com um caroço de manga.

Todo dia é o mesmo ritual. Dependendo da manhã, ele desperta mudo, com cara amarrotada. Ou desfiando o repertório country.

Durante o dia todo, me persegue com aqueles dedões gordos, querendo me pegar, o safado.

Eu sempre escapo e saio passeando por sua barba grisalha, caminho devagarzinho do queixo até as costeletas, já quase perto das orelhas. Gosto de dar umas voltinhas pelo gorgomilo. E, quando quero variar, subo até a bigodeira.

Podia dar um pulo até o cabelo, mas tenho a superstição de que é melhor não chegar muito perto da cabeça dele.

Já arrisquei ir até o sovaco uma vez. Coitado, ele numa reunião no Guarujá, com os advogados, quase ficou doido, parecia que estava com sarna.

Ai, ai, já lá se vão anos de convivência. E nem dá pra me queixar.

A maioria do tempo, a temperatura do corpo é morna (só ficou gelado quando teve aquele papo de que ele “não sabia de nada”) e o sangue, meio alcoólico, mas é salgadinho, hummm.

Pô, sou um carrapato, podia estar esbagaçado aí num matagal e moro nas barbas de um ex-presidente. Passeio, viajo em jatinho fretado, bebo sangue do bom e do melhor e ainda escuto as conversas de bastidor.

Tenho que admitir: dei sorte. No período da Grande Crise, mensalão, tudo aquilo, o meu hospedeiro resolveu se isolar. Foi tomar um banho de mar no Piauí.

Teve foto em jornal, ele com uma bermudona horrorosa. Lembram-se?

Bem, quando ele saiu da areia, foi caminhando por uns carrapichos da praia.

Ali mesmo, encoberto pela segurança, tirou a roupa de banho e botou uma calça.

Foi aí que eu, Karras, entrei para a História do Brasil. Ali, sob o sol da Pedra do Sal, um ovo da minha mãe foi cair bem nos pêlos pubianos do homem. Ele ainda tentou me abortar, se coçando. Mas chegou um repórter e ele teve de se mancar.

Sou carrapato, não chato. Dias depois, eclodi e comecei a odisseia de subir dos pentelhos até o lugar onde os meus iguais se reproduzem.

Foram sete dias terríveis, meu hospedeiro suava feito um porco por causa dos ataques da oposição. Um calor, uma inhaca desgraçada. Eu tentando esquecer o cheiro forte de whisky e cebola, pensando no filho da mãe do Darwin com aquele papo de “só os fortes subsistem”.

No fim, deu mais que certo.

Sem falar no detalhe final dos deuses.

No fim da minha escalada da pentelheira à barba, quem eu encontro debaixo do queixo?

Uma micuim fêmea ma-ra-vi-lho-sa grudada ali. Tinha vindo dos carrapichos piauienses como eu e se chama Dionísia.

Nem precisa dizer, né? Partimos pro fight na hora. Logo mais, a família vai crescer.

É o amoooooor!!

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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Posted in: Crônicas