Pela volta das fazendas [Elyandria Silva]

Posted on 10/01/2017

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Elyandria Silva*

Ela dobrou a esquina naquele exato momento em que a fila de carros fazia cortesia para um senhor passar. O tempo dos motoristas, visivelmente apressados, asfixiado pelo desfile lento do homem que parecia não se preocupar com nada na vida, essas calmarias típicas da meia idade e que dão inveja a qualquer jovem.

Volto à esquina e acompanho o trote desajeitado da morena que avançava a passos urgentes com as combinações esfuziantes de uma moda suja e assustadora, porém, admirável, pela coragem de usar aquela roupa. A calça fuseau laranja com o vestido estampado em tons misturados de rosa e amarelo, de alças, berrante, por cima da calça, lembrava uma alegoria de escola de samba. Observo seus cabelos esvoaçantes, revirados de forma cruel pelo vento. Ao passar pelo canteiro de flores se confunde com elas, laranjas, vermelhas, roxas, cores e mais cores, e o jardineiro é arrancado de sua concentração pela moça furta-cor. Aquele vestido tinha jeito de ser feito de fazenda, com estampa escolhida, com modelo tirado de revista, mesmo com o resultado desastroso que adentrava a Reinoldo Rau.

Era costume, em épocas festivas, Natal, aniversário, ganhar de presente uma fazenda. Ganhei muitas fazendas na vida, gostava tanto, tinha ansiedade ao abrir o pacote, que geralmente era molinho e acusava o que era, para descobrir qual a cor, qual a estampa, o tamanho e o que realmente daria para fazer com ela. Pensou que eram hectares de terra? Não, eram pedaços, metros de tecido que ganhava para fazer um vestido, blusa, saia, enfim, alguma peça de roupa. Costume de família, coisas de tias e madrinhas. Então, firmava-se o compromisso, a obrigatoriedade de achar uma boa costureira para fazer a roupa que seria exibida, em grande estilo, em outra comemoração, onde todos estivessem presentes.

Sou arrancada da nostalgia pelo desaparecimento da moça do vestido de fazenda. As cores se foram, até o sinal parece ter adormecido no vermelho. Os pretos e os brancos voltam a tomar seu espaço no cenário urbano cotidiano. Um desejo! Quem me dera, em alguma data festiva, ganhar de alguém uma fazenda, bem bonita, para fazer uma roupa. E com essa vontade lanço uma campanha pela volta das fazendas, pela volta dos tecidos dobrados e dados em belos pacotes com laços em cima. Ganhar uma fazenda de presente depende de quem deu e de quem ganhou porque, se o presenteado não providencia para fazer a roupa o tecido morre, fica lá, em algum canto, jogado, esperando para ser ressuscitado.

Passo pela banca e leio na capa de uma revista que a moda do verão é de cores radiantes e fosforescentes. Abraços nesses tons para a morena que anda faceira pelas ruas sem se importar com o que os outros vão achar de seu vestido carnavalesco. Admiro gente assim!

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas