Sete sonhos na estante [Alexandre Brandão]

Posted on 08/01/2017

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(Imagem: Átila Roque)

Alexandre Brandão*

I

É uma bola, vê-se de longe, e cai em minha direção. Há uma tensão clara no olhar dos que estão por perto. Meus pais entre eles. Meus irmãos também. A menina que eu amo larga a minha mão e foge do que está prestes a acontecer. Por que o pânico? Tenho a responsabilidade de fazer como os jogadores: matar a bola no peito e deixar que escorra pelas pernas até alcançar meu pé direito, o bom. Não sou nenhum Pelé, mas posso cumprir essa missão inesperada. Quando a bola chega perto, muito perto, vejo que se trata de uma bomba. Não posso correr, todos confiam em mim, depositaram suas vidas em minhas mãos (no peito, no pé). A bola atinge meu peito, e o impacto é tão grande que o chão se abre e me engole. Quando a bomba quica no buraco e volta ao ar, passo a fazer balõezinhos com ela. O movimento leve que se segue parece o de um balão de gás subindo e descendo. Mas, de repente, a bomba explode.

(O despertador das seis e meia toca.)

 

II

Os pássaros voam de costas, os cavalos trotam ainda que lhes faltem as patas.

(Um grito, sem origem, perturba a madrugada.)

 

III

Aquela menina que nunca sequer me notou fixa o olhar no meu. Ficamos uma eternidade assim estáticos, olho no olho. De repente, de suas órbitas oculares começam a sair imensos papiros. O que sai do olho esquerdo é vazio, um papel antigo, grosso e fosco. No da direita, há uma frase que aos poucos vai se revelando. “Agora é tarde”, é o que está escrito. Antes que eu lhe diga alguma coisa, a menina dos meus sonhos se vira e sai correndo. Vou atrás dela, e os dois ficamos presos a uma corrida que não nos tira do lugar. Tenho então uma ideia aparentemente brilhante: estendo os braços para agarrar a garota. No entanto meus braços vão se tornando grandes, elásticos e saem do meu controle. A menina se vira para mim, e vejo que ela não é aquela que nunca sequer me notou.

(Da mesa do almoço, sob censura frouxa da mãe, ouvem-se as piadas picantes do irmão.)

 

IV

Stela e eu entramos em um abatedouro. Antes que eu estranhe a situação, chifres crescem na minha cabeça. Stela muge. Os homens encarregados de nosso sacrifício se apiedam de nós e começam a rir. Feito Ferdinando, o Touro, esfrego a pata no chão. Cai uma chuva quente. Stela berra que é ácida.

(Sem cobertas, a noite é fria.)

 

V

Tenho a pele azul, e as pessoas, no Beco dos Aflitos, me comparam a um pelicano.

(Um cutucão para interromper o ronco.)

 

VI

 Quando vou entrar no palco, as luzes se apagam. Roberto Carlos passa por mim e diz daquele jeito dele: “que coisa, bicho”, depois mete o dedo no interruptor, entra no palco e o mundo acaba.

(Às quatro da tarde, dorme-se a sesta ou a noite sem fim.)

 

VII

Eu e Deus jogamos porrinha. Ganho. Deus chora.

(O sono dobra o cabo dos dias.)

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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Posted in: Crônicas