Previsões para 2017 [Luís Giffoni]

Posted on 07/01/2017

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Luís Giffoni*

Gosto de fazer previsões a cada começo de ano. Previsões antecipadas, que fique bem redundante. Pois muita gente faz previsão depois do fato acontecido. No caso da moça que apareceu grávida, há sempre um gaiato disposto a comentar:

– Eu sabia! Os pais davam muita liberdade a ela!

Ou no caso do rapaz que se matou:

– Eu sabia! Os pais não davam muita liberdade a ele!

Prever é a mais difícil das artes. Nenhuma bola de cristal funciona. Nem estrela, conjunção de planetas, ascendente e descendente, sonho, psicanálise, nada. O futuro é um segredo bem guardado. Senão, eu gostaria de saber os números de uma Mega Sena acumulada. Isso me bastaria para mudar de opinião. Pagaria de bom grado uma consulta ao futurólogo de plantão que me revelasse o resultado do sorteio.

De volta às minhas previsões de começo de ano. Gosto das trágicas. Fazem mais sucesso. Não dá Ibope dizer que muitas pessoas iniciarão um namoro que durará muitos anos. Coisa mais sem graça. É melhor prever que um avião cheio de gente cairá, sem sobreviventes. Claro que um grande avião cairá em algum lugar do mundo em 2017. Previsão certeira, portanto. Ou que haverá terremotos, tsunamis, enchentes, desmoronamentos nas encostas brasileiras durante as chuvas de verão etc. Tudo isso posso prever sem erro. É o que faz muita gente que sobrevive da ingenuidade alheia. Prevê o óbvio. Com uma linguagem capciosa que tenta lembrar grandes revelações ou segredos mágicos.

No entanto, farei uma previsão terrivelmente trágica. E estou 100% correto. Desde agora até o dia 31 de dezembro. É a seguinte: haverá corrupção à solta no Brasil nos próximos 12 meses. Não importa o Moro, não importa a PF, não importa a Justiça. Neste exato momento e nos muitos à frente, a bandalheira estará correndo Brasil afora e assim continuará. Ou você acha que o prefeito de São Nunca do Córrego Fundo se preocupa com o desvio que ele e seus vereadores fazem do dinheiro da merenda escolar? Ou que aquela obra rodoviária lá no distrito de Caixa Prego está superfaturada? Ou que o deputado não pega um por fora para ajudar o amigo empresário na aprovação de uma lei? Ou que as grandes bancadas do Congresso não estão atentas aos interesses que representam, mesmo que tenham de prejudicar o povo que as elegeu? Pois é, não há PF que chegue a São Nunca. Não há Moro para a nação inteira. E ele já deve estar louco para largar o papel de xerife.

Enquanto isso, nós trabalharemos, trabalharemos quase a metade do tempo para pagar impostos. Impostos sobre impostos. A garganta da viúva não tem fim. Ela quer mais e mais para alimentar a corrupção e a incompetência. E faço outra previsão: os impostos aumentarão em 2017. Subrepticiamente, na surdina, de madrugada, mas aumentarão. Em compensação, lembro-me de uma orgia de cobrança de impostos acontecida em Minas Gerais há algum tempo. Tentaram cobrar uma taxa total de 20%, menos da metade do que pagamos hoje. Sobreveio uma revolta. Sobreveio até um movimento que marcou a nação, chamado Inconfidência Mineira. Movimento heroico, hoje reconhecemos, comemorado do Amapá ao Rio Grande do Sul. Mudaram os mineiros ou perdemos a coragem?

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas