Atrás das grades [Rubem Penz]

Posted on 06/01/2017

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Rubem Penz*

– Alô, José, pode me passar o que foi encontrado aí atrás das grades?

– Sim, senhor. Deixa ver, deixa ver: aparelhos de ar-condicionado, móveis de luxo, celulares, dólares, joias, drogas…

– Peraí, conseguiram as drogas com quem?

– Com o nosso pessoal, né? Também o básico: facas, garfos, colheres, torradeiras, micro-ondas, frigobar, TV…

– De que tipo?

– Daquelas com tela plana e sinal digital.

– Ah, essas vítimas da sociedade! Se justificam dizendo o quê?!

– Dizem que têm o direito de ter.

– Hummm. E nossa vigilância? Viu tudo isso entrar no mole?

– Acho que qualquer um vê, né? Essas coisas não entram sem serem notadas.

– Cara, e ainda se queixam…

– Se queixam muito, senhor. Principalmente da opressão. E que não podem dar um passo sem uma câmera de vigilância controlar. E que há muitas regras e horários, a revolta de sempre.

– Nosso homem infiltrado já sabe como melar isso tudo?

– Sim, senhor. Deu todo o serviço. Operação armada.

– Bom, bom. Manda estourar. Pra já.

– Com violência ou sem violência?

– Vai depender deles. Não reagiu, violência moderada, só pra mostrar quem manda. Reagiu, pode aloprar!

– Beleza! E o senhor, senhor, sai aí da cadeia quando?

– Eu? Ah, não f*! Aqui dentro só tem irmão e eu sou topo da cadeia alimentar. Aí fora tu sabe: ninguém tá seguro.

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* Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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