A noite é uma criança [Daniel Cariello]

Posted on 05/01/2017

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Daniel Cariello*

De uns anos para cá, notei que a maioria de meus amigos havia desaparecido dos bares e das festas pelas madrugadas. Depois que virei pai, descobri onde eles se esconderam: nos aniversários infantis.

– Ô, Tigrão!
– Fala, rapaz. Quanto tempo!
– Ficava me perguntando por onde você andava.
– Aquietei. Não saio mais.
– Abandonou a vida noturna? Logo você, o rei do Beirute, que tinha até cadeira cativa no bar…
– Agora só gerencio a cadeirinha de bebê do meu filho.

E aí, entre uma empada de palmito e um quibe com recheio amorfo, o papo gira em torno dos velhos companheiros.

– Lembra do Pituca?
– Era o mais maluco de todos.
– Encontrei com ele semana passada, num aniversário com tema do Frozen.
– Tava paquerando a moça que fazia a Elsa, aposto, como naquele casamento em que deu em cima da noiva e levou uns sopapos de todo mundo.
– Que nada. O Pituca mudou. Trocou as festas onde mamava todas e saía carregado por outras onde chega carregando mamadeiras.
– Ele teve filho também?
– Dois.
– Caramba…

Neste momento, uma legião de crianças me cerca com a mais perigosa arma disponível em uma festa desse tipo, um artefato que deveria ser definitivamente banido de comemorações e de ambientes familiares: o balão de ar. Tenho pânico de balões desde pequeno e sinto especial agonia daquele segundo que antecede a inevitável explosão. O único que eu gosto é o balão de gás, quando a gente larga o fio e ele sai voando rumo ao infinito. As crianças percebem minha ojeriza e só de provocação decidem estourar esses instrumentos do mal ao meu lado. Ou comigo.

– Tio, tio, você quer brincar?
– Claro, de quê?
– Vou colocar esse balão na minha barriga. Aí você me abraça bem fortão e ele vai explodir. É muito legal.

Penso em dar uma resposta à altura do desaforo, mas acho melhor me refugiar em algum lugar seguro, o mais longe possível daquelas ameaças emborrachadas. Eis que de repente, por sorte ou instinto, encontro-me na cozinha, entre caixas de coxinha de galinha e mares de garrafas de refrigerantes das mais variadas cores.

– Daniel.

Olho pros lados. Não vejo ninguém. A voz sussurra meu nome novamente e percebo que ela vem de baixo. Mais precisamente de alguém ajoelhado atrás do balcão, segurando um copo cheio. É o Tigrão.

– Daniel, olha o que achei aqui.
– O quê?
– Cerveja.

Então me junto ao Tigrão e nós dois dividimos, humilhados e escondidos, a única garrafa de cerveja da festa. E brindamos, com bebida quente, aos dias de glória.

* Esse texto faz parte do livro Cidade dos Sonhos, lançado em 2015 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas