A memória a quilo [Marco Antonio Martire]

Posted on 04/01/2017

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Marco Antonio Martire*

Quando eu era criança não havia restaurantes de comida a quilo. A novidade surgiu um pouco mais tarde. De repente, em um instante dezenas de restaurantes passaram a vender comida na balança. Eu na época apenas estudava, comia sempre em casa, portanto não tirava vantagem da incrível invenção. Assistia de longe: em um só prato brilhavam juntos o bife de panela e a bolinha de queijo (típica das festas de casamento e aniversário), também cabiam no prato o arroz com feijão e o churrasco, a lingüiça frita ao lado da salada. Foi uma febre.

Outra coisa que não existia quando eu era criança são as grades protegendo as portarias dos edifícios. Nem tenho conta das vezes em que, voltando da escola, invadi em correria as portarias da rua, brincando de piques mil. As mães vinham em conversação no caminho, aproveitando o convívio, nós crianças corríamos para frente e para trás freneticamente, sempre sabendo que a brincadeira tinha prazo para acabar: quando as mães chegassem à nossa portaria teríamos que nos resignar e subir, chateados porque em seguida viriam obrigações como o dever de casa, o banho, a janta, deitar na cama quietos e dormir.

Outro lance que nessa era não existia é a fila única de banco, com senha ou sem senha. As filas de banco então imitavam as das caixas de supermercado. Sei porque ia ao banco sempre: meu pai foi comerciante, cartão de crédito se usava pouquíssimo, eu e meus irmãos é que fazíamos no banco o depósito dos cheques. Confesso que ir ao banco nunca deixou de ser essa tarefa aborrecida, papai pedia, tínhamos que discriminar na guia de depósito os cheques um a um, somar com velha calculadora, conferir, sair de casa depois do almoço e enfrentar as filas. Nos horripilantes dias 10 (depois dias 5), o banco enchia terrivelmente e sofríamos. Se déssemos a sorte de escolher uma fila boa, tudo se resolvia em 15 minutos, caso contrário a espera podia durar mais de hora. Enfrentar a fila longa às vezes podia ser jogo também, sabendo que o caixa trabalhava em ritmo acelerado. Lidávamos com uma espécie de ciência.

Cito estas memórias de forma sucinta, já que não é minha intenção sobrepesar ninguém de lembranças cascudas. Digo por curiosidade, talvez o leitor não seja tão nascido quanto eu e ainda passeie. Saber destes detalhes pode ajudar em algo, o que duvido. Estes detalhes mal servem até para memes, aposto que nem ao Google importam.

No calor deste verão importa mesmo a qualidade do aparelho de ar-condicionado, outra novidade que apenas o colega rico da escola gozava. Assim como o videocassete, que no século XXI sumiu da memória. Sumiram também os açougues de rua, tão numerosos quanto as farmácias hoje. Multiplicaram-se os carros, caminhões e aviões e tal e tal, et cetera e tal.

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Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

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