Minha lagartixa de estimação [Guilherme Tauil]

Posted on 03/01/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Para evitar a verborragia alheia, gosto de ficar sozinho de vez em quando. Mesmo dominando a técnica de desligar a mente quando o assunto não me convém, balançando a cabeça em momentos estratégicos, tem hora que não dá. É preciso desligar o ouvido. Como dizem, o homem moderno perdeu o prazer do silêncio.

A solução é entregar o corpo ao sofá. Deixar que as almofadas absorvam o cansaço, dar uma trégua ao pescoço e inclinar a cabeça para trás, exalando todo o tédio do fundo dos pulmões. Por um instante, finjo-me de morto. A boca aberta com a língua de fora, os olhos semicerrados encarando a branquidão do teto. Nada acontece. Até que meu parco instinto de caçador detecta uma pequena mancha acinzentada, que deduzo ser uma lagartixa.

Imóvel, parece estar confiante em sua camuflagem ruim. Eu me aproximo lentamente, curioso pelo bicho que me fisgou da monotonia. Ela se finge de morta, exatamente como eu estava há pouco. Duas coisas nos diferem, porém. Uma, ela não está cansada de artificialidades sociais. Outra, desconhece a gravidade e atua no teto como se estivesse estatelada no chão.

Mal sabe que já conheço suas estratégias. Muitas vezes atormentei lagartixas só para ver a dança frenética de seu rabo, que num ato de coragem e desespero é deixado para trás. Aí, com o predador entretido, ganha tempo para fugir e criar um rabo novo.

Mas os tempos são outros. Hoje, a lagartixa tem meu respeito e não testo mais sua paciência. Ela é conveniente, não faz barulho, quase não deixa sujeira. É honesta e se alimenta daqueles que atrapalham a vida – baratas, aranhas, pernilongos. Nunca ultrapassa seu limite. Está sempre presente, mas sempre distante. Reina sozinha em sua parede, que agora é invadida por um inseto. Percebendo o espetáculo iminente, volto ao sofá enquanto o predador começa sua ardilosa aproximação.

Mais gato que lagartixa, rebola cautelosamente em direção à presa. Tudo é calculado. Sua condição de réptil não lhe permite desperdiçar energia com a vítima, que, antes de notar o perigo, é abocanhada. Depois do bote, balança a cabeça e não sei se é para engolir melhor ou para agradecer a vibrante plateia de um único homem. Prefiro acreditar que também se sente solitária e me enxerga como uma espécie de aliado. Eu atraio os pernilongos e ela os devora. Uma relação harmônica interespecífica – leis da selva aplicadas no meu apartamento.

Que me desculpem os donos de cães, mas acabo de perceber que o animal doméstico perfeito não tem caninos. Tal qual as pessoas, os cachorros fazem demais e exigem atenção a todo momento. Se falassem, certamente comentariam todas as besteiradas sobre vizinhos, tempo, trânsito, dificuldades da vida. E falariam cuspindo. As lagartixas, não. Elas têm mais o que fazer. Nada contra os cães, mas se ao menos comessem pernilongos…

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas