O repouso do guerreiro [Carlos Castelo]

Posted on 28/12/2016

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Carlos Castelo*

Depois de empreender uma longuíssima jornada da América do Sul até sua casa, Santa sentou-se pesadamente, é óbvio, no sofá da sala. Dava para ver dali como um privilegiado o inverno da Lapônia: sua neve eterna, renas e alces passeando altivos.

Mamãe Noel veio ter com ele.

– Como foi a noite de Natal?

– Tudo igual, ele sorriu, bonachão.

Depois deu um longo suspiro.

– A diferença é que, dessa vez, fui assaltado duas vezes no Brasil. Ano passado só levaram uns carrinhos e umas bonecas. Mas agora foi latrocínio mesmo, 38 na cara e tal. O de sempre, ho, ho, ho…

– Ai, ai Brasil… – disse a esposa.

– Tem jeito aquilo não.

Mamãe Noel deu um tapinha nas costas do marido, tirou-lhe as botas sujas de lama e flocos de neve, lhe ofereceu um chá de tília.

Enquanto ele bebia, Mamãe Noel falou:

– Noel, não era o caso de você se aposentar não?

Ele abriu uns olhões. Ela continuou:

– Tanto tempo nessa lida. E você já tem mais de 50 anos de contribuição…

E:

– Todo dezembro é a mesma história: criança enchendo o seu saco, assalto no Brasil, a mídia lhe esculhambando, dizendo que você anda na companhia de veados. Que tal pensar num Plano B?

Santa fez um gesto carinhoso para que a esposa sentasse ao seu lado; uns tapinhas no sofá de couro de castor polar.

– Eu já pensei nisso, boneca. Mas o quê um sujeito idoso, vestido de roupa de veludo encarnado, barbas brancas e carregando um saco nas costas poderia fazer? Trabalhar de lixeiro?

– Calma, amor, tem sempre uma meia sobrando pro pé da gente.

– Pô, não fala em meia não, mámi: eu me lembro dos trocentos pacotes que tive que botar nelas esse mês…

– É por isso que estou propondo uma grande virada em 2017. Pensa um pouco, meu lindo: você não tem mais saco pra essa vida. Parte pra outra.

Mamãe Noel então encheu a xícara de chá dele novamente. Ofereceu-lhe um biscoito de natas.

– Como eu lhe falei, querida, o quê posso fazer da vida? Esse mercado é extremamente cruel com pessoas da minha idade. E eu não posso aceitar cargo de estagiário na loja Ri Happy…

Foi então que Mamãe Noel tirou do bolso um papel dobrado. Abriu-o e disse:

– Já pensou em política? As esquerdas querem renovar as lideranças no Brasil depois daquela tragédia do impeachment.

E, entregando-lhe uma ficha de inscrição, completou:

– Assina essa ficha do PC do B, Nonô. Vermelho você sempre foi, carisma não lhe falta. Assina, meu senador, assina!

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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