Natal na serra [Daniel Russell Ribas]

Posted on 28/12/2016

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Daniel Russell Ribas*

Em ressaca de rabanadas, aproveito meus últimos momentos em Teresópolis. Parto em breve para a demanda da capital, com a certeza de que todo mundo merece dois dias de folga (ao menos!). Não viajava há anos. Fiz trilha, algo ainda mais raro. Constatei que a natureza tem mais do que 50 tons de verde. E os mirantes da Pedra do Elefante são belos.

Ficar na calmaria por um fim de semana possui um efeito revigorante. Podemos sentar numa espreguiçadeira e pôr em revista nossos atos e resoluções. Conclui que este ano foi marcado por severas transformações externas e internas. É tão óbvio e revelador quanto à beleza das árvores e morros. A novidade está em como reagimos a isso.

Natal é marcado por situações alegres, como a troca de carinhos entre pessoas que há muito não se veem, ou desagradáveis, vide as discussões ou o Tio do Pavê. Se o roteiro é previsível, os momentos introspectivos soam improvisados. Em parte, porque nunca terminamos 365 dias como iniciamos. É aquele instante que usamos para a retrospectiva pessoal antes de beber o defunto de um ano. O que mudou em sua vida? Principalmente, o que mudou em você? Deixou de fumar? Arrumou um novo emprego? Passou a ser uma pessoa melhor e menos irritante? Ou tocou um foda-se generalizado?

2016 foi intenso. Vejo as fotos de meus amigos e amigas e, por trás dos sorrisos, estão as bocas abertas com a língua pra fora. Também pode ser porque se fartaram na ceia. Exaustão se manifesta em muitas formas. E este ano foi uma esteira de velocidade incontrolável. Quando todos achavam que nada mais poderia acontecer… surpresa! E não me refiro a outra sobremesa.

Em suma, sou grato por este ano. Sério, não é efeito da bebida ainda em meu sistema. Conclui isto porque ficamos mais resistentes em meio a obstáculos e desafios. Vimos um mundo que havia sido cuidadosamente construído sumir mais rápido que uma embalagem na mão de uma criança durante a distribuição de presentes. Há uma sensação agridoce, da melancolia das perdas à renovação da esperança. Porque, mais do que nunca, sonhos não são ideias, mas uma necessidade. Se não os realizarmos, o que nos esperará? Não há alternativa. Afinal, o peru não chega pronto à mesa, alguém tem que prepará-lo. Aprenda a receita.

Subindo a Pedra do Elefante, olhei para a Serra dos Órgãos: Dedo de Deus, Nossa Senhora, Verruga do Frade, … construções orgânicas, imponentes. Logo à esquerda, a cidade em clima de natal, tão pequena e calma embaixo. Estar no topo não é ter poder. É ser capaz de apreciar aquilo que permanece apesar de nossos dramas íntimos. Os sonhos são morros que fazemos com as próprias mãos e as folhas, marcas de nossa luta pelo caminho. As casinhas e estradas, desenhos que se perdem em meio à natureza que as cerca, como as frustrações deste bicho inseguro chamado ser humano. Isto tudo passará. A serra em que caminhamos estará lá. Entre na trilha. Só maneire na ceia antes.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras, e excepcionalmente nesta quarta-feira. 

 

 

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