Alguns dias [Elyandria Silva]

Posted on 27/12/2016

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Elyandria Silva*

Com o passar do tempo algumas datas passam a ficar fora de moda, tortas, desajustadas, não combinando com o contexto todo à sua volta. O Natal é uma delas. Que me perdoem os fãs da data, as crianças, o Papai Noel… Já é quase Natal, de novo? Comemoramos ontem, ainda lembro o que comi na ceia. Poucos dias, tudo de novo. Amigo secreto, a compra de presentes, a comilança, o consumismo desesperado, a sensação de que o mundo vai acabar porque na noite do dia 24 todos têm de estar bonitos, arrumados, sorridentes, munidos de presentes e por aí vai a lista. Na época natalina não me sinto com espírito natalino, sempre foi assim.

Não me lembro de ganhar brinquedos e sim roupas e livros. Esses últimos, como podem perceber, fizeram toda a diferença na minha vida, os brinquedos não teriam causado o mesmo efeito. Ouvia, durante todo o ano, pelos cantos da casa, os dissabores da minha avó com algumas pessoas da família. Na noite do dia 24 todos aqueles seres, que aos olhos de uma criança pareciam terríveis, estavam lá se abraçando, se beijando e participando do amigo secreto, quando tinha, o que me deixava muito confusa. Os presentes trocados também eram motivo de estranheza, mas isso é outro assunto.

Na tarde do dia 25 a reunião era na casa da tia que fazia cafés vespertinos maravilhosos, principal motivo que me fazia acompanhar vovó. A roupa tinha de ser nova para usar nesse dia, nem que fosse um ou dois números a mais, era para servir por um longo tempo. O dia em que esse problema acabou, que pude escolher e comprar minhas próprias roupas, “certinhas” no corpo, foi a conquista da liberdade. Nessa tarde, de Natal, também acontecia o encontro de todos os primos, além dos outros parentes. Encontro disso, encontro daquilo, é sempre uma nostalgia forçada e chata, pouco original, mas naquele tempo os encontros eram naturais, nada planejado.

“Ela era linda, agora tá acabada, coitada, casou mal”.

“Eu sempre soube que aquilo não daria certo, ele não valia nada”.

“De onde esse bolo? Vai ovos? Nossa, pouco fermento, e como cresceu!”.

“Quero a receita, vou fazer quando fulano vier”.

“Lembra daquele Natal em que….”

“Coma mais menina, você tá tão magrinha! Tem que dar uma vitamina para essa menina, ela precisa engordar senão o vento vai levar!”. Comentários assim eram sempre para essa que vos escreve.

“Ela tomou a vitamina do ovo de pata com Sadol, não adiantou, não engorda nada”.

“Não sei como vai ser, está cada ano pior”.

“Se anima, as coisas hão de melhorar”.

As conversas, cruzadas ou não, entre aquela diversidade de pessoas em volta de uma mesa grande cheia de comida me deixavam tonta. Sempre muito ecléticos os assuntos variavam conforme os acontecimentos que eram lembrados ou conforme quem comandava a roda-viva. Os comentários de magreza eram sempre direcionados à minha pessoa, falavam como se eu não existisse. Calada, de roupa nova, sentada num canto, ouvia a todos só observando.

Não é uma data que trás a iminência de um grande acontecimento e que me comove de alguma forma. Comercial demais para tanta desigualdade no mundo, triste demais para quem já perdeu alguém. Mesmo assim, todos os anos o peru fica sob minha responsabilidade, acompanhada de diversas recomendações. Dura algumas horas a saga nos supermercados para cumprir com o recomendado e satisfazer a todos. Esse ano não desejo, no dia 24, escrever todas aquelas frases prontas que nos perseguem desde a infância, não desejo, embora isso nunca aconteça, entrar no ritmo desenfreado que todos entram como se tudo acabasse naquela noite e também não desejo consumir o que não preciso.

Desejo apenas, e desejarei daqui a cinquenta dias de novo, que possamos criar novos mundos e que eles sejam tão perfeitos quanto nossos melhores sonhos e que possam nos proteger de tudo o que existe de ruim nesse mundo daqui, inclusive de datas que não mais combinam com a realidade cruel que nos cerca, mesmo que sejamos felizes de alguma forma.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas