O Papai Noel de Londres [Luís Giffoni]

Posted on 24/12/2016

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Luís Giffoni*

Faz um frio glacial aqui em Londres, desses que obrigam urso polar a usar casaco. Frio com vento, chuva e furor de trincar osso. Custei a criar coragem para ir à loja de artigos de Natal, perto da casa de minha filha. Fui e volto feliz, rosto congelado e coração quente, carregando a roupa de Papai Noel que vestirei na noite de Natal. Novinha e cheirosa. A outra, que eu usava há vários anos, está rasgada e fedorenta. Minha neta mais velha já sabe que o avô se esconde atrás dela quando aperto a campainha para trazer os presentes. No ano passado, aos quatro anos, me descartou assim que dei as caras:

– Ah, vovô, você não me engana mais. Eu sei que é você.

Com roupa nova e máscara diferente, mais a barriga de travesseiro amarrado pelo cinto e a barba de lã, uma vez mais serei o Papai Noel de Londres, ou melhor, um Papai Noel em Londres. Papai Noel tropical no meio do gelo e talvez alguma neve para branquear a noite de Natal. Ao alegrar minhas netas, mantenho aceso nelas o fio da fantasia, o espanto diante do inusitado, o susto frente ao sonho que se realiza, a explosão de alegria ante o impossível tornado palpável.

Quero o sorriso da Teresa, a caçula, que só agora entende a festa e já me pediu um brinquedo, qualquer um, a ser entregue pelo barbudo vestido de vermelho. Quero a lembrança que viverá com ela por algum tempo, quando abrir a porta e dar de cara com o impensável.

Quero a curiosidade da Maria, a neta mais velha, que me analisará para ver se está sendo enganada ou vivendo de fato um milagre.

Quero a possibilidade de que aceite estar diante do sonho tornado realidade, quero a felicidade que antevejo jorrar de seu rosto.

É esse espanto, é essa curiosidade, é esse inusitado que faz a vida continuar mais vida. É a continuidade do sonho que nos leva em frente. Somos seres feitos de sonhos, disse há 400 anos um bardo nascido aqui na Inglaterra. Ser ou não ser, eis a questão – ele também disse.

Que então seja. Que seu Natal seja feito de sonhos, caro leitor. Sonhos como os infantis, sonhos simples de conceber, sonhos impossíveis de realizar, mas que a fantasia concretiza com a chegada do inesperado.

E que, em 2017, muitos desses sonhos se transformem em realidade, apesar de tantos prognósticos desfavoráveis. É o que lhe desejo, tiritando de frio, enquanto aguardo o momento de colher sorrisos. Um sorriso basta para nos fazer felizes. Mesmo sem um Papai Noel de fato para trazê-lo.

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações como do Prêmio Jabuti de Romance, da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, Prêmio Minas de Cultura, Prêmio Nacional de Romance Cidade de Belo Horizonte

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Posted in: Crônicas