Servidão? [Rubem Penz]

Posted on 23/12/2016

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Rubem Penz*

Já faz uns dias, uma moça colocou essa pergunta na rede social:

Qual a função da arte?

Imediatamente, uma série de amigos começou a tecer considerações. Eu mesmo não resisti (não que eu seja alguém retraído diante de uma provocação) e tasquei:

Para libertar!

Assim mesmo, com direito a exclamação. E creio exclamativamente na sucinta resposta pois, dentro do par de palavras, cabe uma dúzia de teses, todas elaboradas com mais competência do que uma crônica pretenda alcançar. Por isso gosto de poesia, gosto de aforismos, gosto de títulos: ações/conceitos/sentimentos condensados são forças da natureza. Como uma lauda me aguarda, sejamos laboriosos e vamos desdobrar este conceito um bocadinho (ah, amigos mineiros, espero não usar a expressão de modo incauto).

Desconfio de algo: desde o momento inaugural em que o primata viu nascer a consciência, a compulsão de libertar os pensamentos ganhou tanta força quanto os impulsos mais arraigados de sobrevivência – a fome, a sede, o sexo, o sono, o medo… Da mesma forma, externar o que sentimos recebeu urgência de igual porte às necessidades fisiológicas (se isso não foi retirado, é porque permiti, propositalmente, certa dose de escatologia contaminando a aura de pureza dos sentimentos). Derramamos o tempo inteiro e, alguns de nós, derramam-se melhor do que os outros. E basta nos servirmos do jorro alheio para ganhar a oportunidade de entender a função da arte.

Identificamo-nos pela semelhança e pela diferença diante da arte; rimos, ficamos arrepiados, sofremos pungentes revelações quando afrontados por ela. Choramos compulsivamente ou de modo recolhido uma dor ancestral. A arte purulenta enoja, a brilhante ofusca, a doce acalenta. A música nos tira do chão, a literatura dá rasteiras, as artes plásticas podem tanto acariciar quanto arranhar. O teatro espanta, o cinema encanta, a culinária alimenta antes de engolirmos. Pela arte nos guiamos, nela nos perdemos. Diante da arte somos minúsculos ou colossais, sabujos ou comandantes. Nela há castigo e remissão. Tudo cabe, e o nada também. Glória. Fracasso. Tédio.

O Poder sempre lidou mal com a essência libertária da arte. A Academia vive com ela uma relação de paixão e ódio – quer compreender, classificar, quantificar e, ao mesmo tempo, vê a arte fazendo arte e escapando dos seus moldes. Homens obtusos, pobres de espírito, têm resistência mortal em considerá-la. Ou preguiça. O artista percebe a arte como febre: sintoma de um corpo insuficiente, de um tempo impreciso, de uma paz impossível. Talvez o único ser cuja relação com a arte é plena em prazer seja o mecenas. Financiar a arte é de uma generosidade tão sublime, e a alegria proporcionada traz tanto bem, que outros (muitos) os consideram delirantes.

Pretender estancar a arte, aprisioná-la, tem o mesmo destino de conter uma nascente, um vulcão, uma onda. Isto é, será tarefa vã. A arte renasce limpa e inviolada; derrama-se potente e destruidora; contorna o mais íngreme obstáculo. A arte não serve: impõe-se. Rasga a terra seca feito flor impossível. Faz sombra aos deuses.  Para que serve a arte? – enfim pergunto. Para que a vida serve?

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* Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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