Yolanda e eu [Mariana Ianelli]

Posted on 17/12/2016

3



Mariana Ianelli*

Sou uma mãe recém-nascida que ama sua cria como uma macaca ama o seu filhote. Uma macaca, uma ursa, uma elefanta. Dentro de um abraço contínuo que é uma forma de oração natural. Um amor de corpo e olhos que sob determinadas condições de temperatura e pressão vira euforia, doçura, fúria de bicho, paixão. As noites são noites de vigília. Os dias são de despertares múltiplos, iniciações. O fascínio diante da chuva. Diante de um gato. A alegria debaixo da copa das árvores no seu rendilhado vivo de galhos e folhas que o vento chacoalha. A surpresa da casa à noite no escuro. Debaixo de um móbile. A descoberta da flor. A descoberta do pássaro. Bocados de mundo para um coraçãozinho ainda virgem de grandes espantos, para que se vá fazendo forte e ávido de mais mundo, esse filhote, sem que lhe falte um ninho para onde voltar quando é preciso, um porto, um abrigo com música, uma fotografia de Santa Teresinha, uma jardineira com hibiscos, e aquela brincadeira preferida de a uma certa hora do dia visitar um a um os espelhos da casa. Sou uma mãe recém-nascida aprendendo a ser junto com sua cria, uma mãe sem experiências pregressas de maternidade, valendo-se, antes de toda ciência, da sabedoria do instinto, que é uma sabedoria de cheiro e de tato, de agudos e graves, olhos nos olhos. Ainda vamos nascer muitas vezes, para novas linguagens do amor. Para as palavras e os símbolos. Para a redescoberta do espelho e da flor. Novos elos virão, como naquelas rosáceas de crochê da bisavó feitas de tempo habitado. É isso. Habitaremos o tempo em muitos desenhos de rosáceas delicadas. Tudo a partir deste nosso primeiro amor. Tudo a partir deste nosso primeiro elo animal.

yolandaeeu

__________

Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

Anúncios
Posted in: Crônicas