À espera da cura [Madô Martins]

Posted on 16/12/2016

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Madô Martins*

Mais de duas semanas em total desânimo. Para onde foi minha energia? No diagnóstico médico, um vírus que resolveu sair da incubação e sabotar o físico, para mostrar que não somos nada, diante do imponderável. Amanheço como se atropelada por um caminhão. Durante o dia, arrasto-me pela casa ou, se ouso sair, preciso ter sempre um assento por perto, porque a sensação é que o desmaio é iminente. Com o passar das horas, vou melhorando aos poucos, atingindo a normalidade lá pelas 20. É quando a voz fica firme, o olhar torna-se nítido, as forças retornam, como se nada tivesse acontecido. Até mais ou menos a meia-noite, quando fragilizo novamente, tomada por uma fadiga imensa.

A única coisa boa nessa saga é que confirmei amizades preciosas, anjos interinos, ombro a ombro com o da Guarda. Uma amiga vem de longe me trazer canja, que ela mesma preparou. Outra, me acompanha ao pronto-socorro, quando ainda suspeitávamos ser dengue ou afins. Um terceiro, apresenta-se para fazer compras, pagar contas, oferecer transporte. E uma quarta, sugere orações e reza por mim. Por telefone ou e-mail, outros ainda desejam pronto restabelecimento, o que também é meu maior anseio.

Porque os dias avançam rápido em direção ao Natal, e ainda não encontrei disposição para percorrer as lojas lotadas, à procura de presentes especiais, com o jeitão de cada destinatário. Nem consigo participar de confraternizações como queria, porque tudo me cansa: arrumar-me para a festa, providenciar a lembrança do amigo secreto e algo de comer para levar, combinar ida e vinda com os demais, conversar, rir, brindar… A vida, neste estado de ânimo, assume uma face cruel: só os saudáveis conseguem sorvê-la integralmente.

Mas estou me recuperando, como todo vaso ruim. Sou dura na queda. Faço planos modestos para cada jornada seguinte, ciente das limitações atuais, e cumpro a agenda. Depois, folha de papel, bolha de sabão, me recolho para descansar, amaciando o sofá que, a cada dia, ganha mais dobras, assim como o colchão.

Durmo pesado, sonho pouco e confusamente, nem sempre escuto o despertador. Abri mão da rotina, levanto quando o corpo pede movimento, tomo café quando chega a fome, leio o jornal como se fosse o último, degustando as páginas sem pressa. Alimento a esperança de voltar ao que fui, fazendo círculos vermelhos nos filmes a que assistiria, nos eventos a que compareceria… Preencho as palavras cruzadas em várias etapas, intercaladas por pausas para recuperação. Quando a solidão pesa, uso o celular para ouvir meus anjos sem asas, saber da família, pedir comida. Aí, canso outra vez.

Sei que, mais dia menos dia, o vírus de nome comprido será derrotado. Mas também sei que há outros males a vencer. Como os demais brasileiros, sou apenas mais uma a tentar  sobreviver, nestes tempos bicudos. E espero ter forças para aguentar os golpes dos novos pacotaços, que nos rondam como nuvens de tempestade, prestes a desabar. Desta doença, precisamos todos, com urgência, nos curar.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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