Eu durmo quando o trem acorda [Elyandria Silva]

Posted on 13/12/2016

0



Elyandria Silva*

Andar muito nos trilhos pode ser perigoso porque nos tira a liberdade. Nunca fui muito disso, de querer seguir os tais trilhos. Estava cansada, muito cansada. Dormi sem pensar em nada. A luz do poste me acertava em cheio no rosto, mas ela só acendia nos sonhos, se é que eles existiram naquela noite. A cama ainda não havia chegado e por algum tempo iria dormir no colchão, no chão. Na verdade nem a havia comprado ainda, a cama. A casa estava nua. Um lugar sem alma e sem roupas. O colchão não tinha lençol e podia sentir suas nuances frias em contato com meu corpo. Caixas ficaram espalhadas pelo chão e a arrumação iria continuar no dia seguinte. Cheguei num dia de calor intenso, com corpos confeitados por gotas de suor.

O silêncio da rua era cortado, minuto a minuto, por carros que atravessavam o asfalto em alta velocidade. Assim é até os dias de hoje. Ainda era de madrugada, quando aconteceu. Parecia uma grande explosão, um terremoto, uma queda do céu. Pareciam muitas coisas, juntas ou separadas, quando acordei assustada e sobressaltada com o estrondo. Coração disparado. A luz do poste a fuzilar meus olhos semicerrados. O barulho se desdobrava sem parar. As paredes tremiam e o chão ameaçava descer abaixo de si mesmo. Na semiescuridão, madrugada mais fresca, puxava o sublençol para me proteger de uma possível submersão terrena. Depois de um longo tempo o silêncio voltou. Não dormi mais e logo o dia amanheceu. Assim foi durante muito tempo. O trem não tinha horário para passar.

Foi assim minha primeira noite quando cheguei em Jaraguá do Sul, há 15 anos. Sem saber, não conhecendo nada da cidade e recém-chegada para trabalhar, sequer imaginava que o prédio do apartamento que aluguei era praticamente grudado na linha do trem. Os familiares, receosos, temiam um descarrilamento que me fizesse desaparecer durante o sono. Enquanto sonhava com o dia que o contrato de aluguel vencesse, o tempo foi passando.

Um dia me dei conta de que ele não passava há dias. Esperei. Esperei. Nada. O trem havia desaparecido. Nenhum barulho. Nem as tradicionais marteladas avisando a chegada. Nem o apito. Cogitei continuar morando ali. Contei a novidade à família. Ele silenciou e, na tentativa curiosa de descobrir o que havia acontecido, certo dia o mistério se desfez. O trem havia se incorporado a mim. Ele era eu e eu era ele. E assim, quando ele passava, não mais o escutava. Ele andava nos trilhos, fiel a seu caminho, esteve ali todos os dias, nunca deixou de passar. Ele não podia perder tempo com quem o interpretava mal e com pessoas assim como eu, que o julgavam errado. Porque ele era só um trem.

Já faz 15 anos que, assim como o trem que tem seus horários de passar pelos trilhos, eu tenho os meus e só durmo quando o trem acorda.

_________

Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

Anúncios
Posted in: Crônicas