Edward [Daniel Russell Ribas]

Posted on 12/12/2016

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Daniel Russell Ribas*

Conheci uma pessoa que tem tatuado no braço um desenho de Edward Mãos-de-Tesoura. Para quem cresceu nos anos 90, isto traz memórias que permanecem em vários sentimentos. O personagem é fascinante, uma versão criança da monstro de Frankenstein: criado por um cientista louco, porém bondoso, ele é estranho e assustador à primeira vista, mas conquista por suas insuspeitas habilidades – para o mundo, um exímio escultor; para os íntimos, um ser com um coração puro e uma visão onírica e única em um universo padronizado e artificial. Em suma, uma bizarrice. Incapaz de ser compreendido exceto para quem possui abertura para o extraordinário.

Dos personagens de Tim Burton, talvez sinta mais empatia para sua interpretação de Ed Wood: um otimista, apesar de todos os abalos, histérico em momentos, mas convicto de que sua busca produzirá resultados; leal aos amigos, por mais desajustados que sejam; e passional, tornando esta qualidade o motor de sua trajetória. Já Edward é a consequência de todas estas qualidades: ele é a entrega absoluta. Ao contrário do pior cineasta de todos os tempos, a criatura é vai além do humano, porque não pode assimilar vícios e decepções típicos. Ele é o que é, sem julgamentos. É um ideal em uma roupagem específica.

É precioso em momentos de questionamento relembrar esta inocência. A vida é um moinho, cantava Cartola, e o trituramento nos bota em teste. Há forças, voluntárias ou não, que buscam acabar com nossas certezas e esperanças. Este ano, por exemplo, envolveu situações nos quais os limites da tolerância e boas intenções foram postos à prova. Ninguém sairá o mesmo deste rio. O que surgirá na outra margem é um mistério visto com desconfiança. Como se manter positivo se aquilo em que acreditava e amava se foi? Como a vida segue?

Na ocasião em que revi Edward, participava de uma leitura em homenagem a um amigo que faleceu. Decidimos que a melhor maneira de lidar com a perda foi expor aquilo que ficou. A carne é finita, mas o legado é eterno. Entre textos e lembranças, aplaudimos a constância de que simples atos têm um efeito transformador. Pessoas vão e vêm, mas carregamos destas interações a magia do instante e sua habilidade em trazer algo que nos tira de nós mesmos. Seja uma risada ou o reconhecimento de uma obra, o sentimento retorna. Rememoramos em história a descoberta do extraordinário escondido por trás do aparentemente banal, como uma cerveja com amigos em um bar ou uma dança em meio a flocos de gelo.

No filme, uma senhora conta uma fábula para uma criança. Ao fim, se revela que não era um mero conto de fadas, mas um fato, embalado pela perspectiva do tempo e do sentimento. Há uma beleza que apenas certos olhos notam, e a transmissão disso permite que outras possuam desenvolver seu espanto em buscar os detalhes. Rugas à parte, o olhar não se cansa quando há algo em você que resiste. É mais forte que a morte, que as traições, que a loucura. Existe um elemento muito especial na face de um boneco rachado.

Em seu castelo, Edward reside reconstruindo o ambiente à sua visão, pueril e brilhante. Uma faísca de luz imortal como o próprio, que não se perderá se a tocarmos com frequência. Pode ser através de um texto ou uma imagem. Lá escondido do cinismo, protegido por quem a cultiva, existe inocência.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas