Estrelas cadentes [Daniel Cariello]

Posted on 08/12/2016

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Daniel Cariello*

— Madame Louise, seja bem-vinda a bordo do seu foguete espacial. Faça a gentileza de colocar o capacete e apertar o cinto, já vamos partir. Está pronta?

— Estou!

— Vou fazer a contagem regressiva: …três, dois, um! Vrrrrrrr. Estamos decolando!

— Eba!

— Pronto, chegamos ao espaço sideral. À frente, vemos a constelação do Cruzeiro do Sul. Uma constelação tem várias estrelas juntas. Veja como parece uma cruz.

— E parece uma pipa também!

— Parece mesmo, ótima observação. Madame Louise, como eu disse mais cedo, nosso destino final é a Lua, mas vamos parar em uma lanchonete estelar pelo caminho para descansar um pouco e comer algo antes de continuar a longa viagem.

— Lá tem suco de goiaba?

— Não apenas suco de goiaba, mas suco espacial de goiaba. E também biscoito de chocolate recheado de poeira cósmica. Gostaria disso para o seu lanche?

— Sim, mas não quero a poeira.

— Ok Aqui está. Suco e biscoito a vácuo.

— Que gostoso!

— Fim da pausa, Madame Louise, vamos decolar novamente, temos uma missão muito arriscada a cumprir.

— Por que a missão é muito riscada?

— Não, ela é arriscada, perigosíssima.

— Oh!

— Precisamos encontrar os lunáticos lunares. Eles protegem o cofre com o tesouro que estamos procurando. Acontece que são imprevisíveis, nunca sabemos se estarão de bom ou de mau humor. Por isso, trouxemos nossas pistolas de cócegas. Vamos atacá-los caso não estejam em um bom dia. Deixa eu testar a pistola em você.

— Ha ha ha. Para, pai, para.

— Ótimo, já sabemos que funciona. Ei, chegamos à Lua, prepare-se para descer. E não se esqueça de vestir seu uniforme de astronauta.

— Mas eu só trouxe a fantasia da Branca de Neve.

— Serve. E pegue a maçã envenenada. Pode ser que a gente precise dela.

— Tá.

— Madame Louise, cuidado! Os lunáticos lunares estão nos atacando. E parecem bravos. A pistola de cócegas não está fazendo efeito, deve ter descarregado. Jogue a maçã envenenada. Rápido, eles estão se aproximando!

— Joguei.

— Deu certo! Eles a morderam e agora estão todos dormindo. Vamos pegar o tesouro, está logo ali. O que tem dentro?

— Minhas bonecas e meus lápis de cor.

— Muito valioso, sem dúvida. Agora vamos voltar para o foguete, precisamos retornar à Terra. Mas, espere, as estrelas estão desabando em cima de nós. Uma delas destruiu nossa nave. Oh, também fui atingido. É meu fim!

— Pai. Levanta, paiê. E vê se cola as estrelinhas direito para elas não ficarem caindo do teto no meio da nossa brincadeira.

— Tá bom, Madame Louise…

* Esse texto faz parte do livro Cidade dos Sonhos, lançado em 2015 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas