A arte do elogio dúbio [Guilherme Tauil]

Posted on 06/12/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

A amiga se senta ao lado da dona do restaurante, tira os talheres do saquinho e diz: “sabe, Lurdinha, o que eu gosto mesmo na sua comida é que nela nada se sobressai.” Dona Lurdes, feliz proprietária de um quilo que serve comida árabe às quartas e japonesa às quintas, sorri ao mesmo tempo em que deixa a gravidade atuar sobre suas bochechas, esboçando uma cara de satisfação duvidosa – mais ou menos como a da Mona Lisa, que até hoje não sabem se está mesmo sorrindo. Na mesa ao lado, discretamente interrompi o almoço só para ver como Dona Lurdes reagiria ao receber o mais sutil dos impropérios: o elogio dúbio.

O elogio dúbio é uma arte milenar, com registros desde a Grécia Antiga, e se dá sempre que aquele silêncio constrangedor ocupa alguns segundos a mais do que deveria. Sua característica mais importante é a capacidade de botar em corda bamba o elogiado, que, dependendo de seu humor, pode pisar pra lá do limiar – embora a reação mais comum das vítimas do elogio dúbio seja o sorriso amarelado, há registros de rompante de choro e agressão física.

Da parte do enunciador, o importante é que a dubiedade não seja intencional, de modo que essa arte não deve ser confundida com outra, que é a da ironia fina, de natureza muito distinta. Por exemplo: não havia nada de irônico quando uma amiga me disse que estava com saudades das minhas “mãozinhas de rã”, em referência às minhas palmas sempre gélidas, as quais tive vontade de não mais tirar do bolso.

O elogio dúbio não se sustenta apenas pelo conteúdo. Depende muito do timing e do contexto. Já vi amizade ser desfeita por conta de um comentário que, se tivesse vindo de algum blogger adolescente à noite, seria um baita elogio, mas como veio de um estudante de literatura russa pela manhã, pegou mal: “você fica muito bem desarrumada”, disse o ingênuo à moça, que virou as costas e foi-se.

O mais trágico dos elogios dúbios que cometi foi dizer para uma amiga que seu estilo de decoração era muito parecido com o da minha mãe. Ora, qualquer um que conheça minha mãe poderia atestar seu bom gosto. Mas a mãe alheia, essa ilustre desconhecida, será sempre o símbolo máximo dos elogios dúbios. A gente sabe que, vindo de mãe, a intenção é boa. Mas que, vindo de mãe, é preciso um pé ou dois atrás.

Só me resta esperar que nenhum leitor venha elogiar a crônica que, de tão bonitinha e singela, nem parece que fui eu que escrevi.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

 

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