Furúnculo lírico e outras atrações [Raul Drewnick]

Posted on 04/12/2016

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Raul Drewnick*

Se quiseres que ouçam com atenção o relato de tuas desgraças, convém atribuí-las ao amor. É um personagem que, digam o que disserem, não sai de moda. Até um furúnculo na nádega, se for lançado como obra dele, assume certo lirismo.

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Quando chega a fase em que os gorjeios começam a parecer cacarejos, o passarinho deve pedir ao dono que o leve com a gaiola para dentro de casa e ali o deixe ficar até a morte. Que seja poupado dos impiedosos olhos do sol e da zombaria dos passarinhos jovens.

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Eu a chamei de Caperucita. Ela não entendeu e, por não entender, não notou também a insinuação de lobo que eu, com todo o meu improvável charme, tentava lhe impingir. À nossa frente, a floresta era toda convites.

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Para ser poeta, não é preciso muito mais que ter o jeito certo de entender alguns acontecimentos da vida, como as flores, as nuvens e os pássaros.

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Às vezes, o senso comum se rebela e adota um estilo próprio.

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Nunca leiam sonetos. A única e descarada missão deles é provar que o amor existe. Ou não.

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Se aspiras à glória, pensa em como ela deve estar aquecendo agora o coração de Shakespeare.

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Os que morrem por amor são sempre aqueles tidos como idiotas antes desse gesto grandioso. E depois também.

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O passarinho da literatura todo dia vem nos acordar com sua impostura cruel: trabalhar, trabalhar, trabalhar – quem não trabalha não ganha o Nobel.

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Demos a vida. Foi pouco, já se vê. O que terão dado Shakespeare, Dostoiévski  e Flaubert?

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Constrangidos por só falarem de amor, os poetas às vezes se aventuram por outros temas. É quando os leitores menos gostam deles.

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À inquietação da carne o amor não traz cura ou sossego – é só placebo.

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Morrer é uma das aporrinhações da vida, assim como ir ao dentista. A diferença é não haver dia e hora marcados.

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Quando menino, uma tarde pensei em deixar que minha pipa ficasse no céu até a chegada da noite. Talvez na volta ela pudesse me contar como é uma estrela vista de perto.

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Para montar uma farsa, o amor precisa só de um tolo e uma comparsa.

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Morrer pela literatura é um projeto que, se eu não o apressar, será precedido pelo prosaico processo de morte natural, com as causas costumeiras: cardiopatia, diabetes, pancreatite, pneumonia.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas