Escritor Ferreira Gullar também era cronista

Posted on 04/12/2016

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Embora tenha feito o seu nome na literatura através da poesia, o escritor Ferreira Gullar, morto neste domingo (04/12) no Rio de Janeiro, aos 86 anos, também é autor de livros de crônicas.

Em 1990, ele reuniu algumas das crônicas escritas para “O Pasquim” e “Jornal do Brasil” desde a década de 1960 e lançou o livro “A estranha vida banal” (José Olympio).

Em 2001, publicou “O menino e o arco-íris“, coletânea de crônicas da coleção “Para gostar de ler” (Ática), voltada para leitores em formação.

Ferreira Gullar também lançou em 2004 a sua edição para a coleção “Melhores crônicas” (Global).

Com o livro “Resmungos(Imesp), que reúne crônicas escritas pelo autor na Folha de São Paulo, Ferreira Gullar venceu não apenas o Jabuti de melhor livro de contos/crônicas de 2007, mas o próprio prêmio de melhor livro do ano, feito até então inédito para o gênero.

No ano de 2011, saiu a sua edição para a coleção “Crônicas para jovens” (Global).

 O escritor também teve um programa de crônicas na Rádio Cultura.

No começo deste ano, publicouA alquimia da quitanda – Artes, bichos e barulhos nas melhores crônicas do poeta (Três Estrelas), coletânea de textos publicados na Folha de São Paulo.

Abaixo, uma das crônicas publicadas em “A estranha vida banal”.

A estante

Ferreira Gullar

Naquele novo apartamento da rua Visconde de Pirajá pela primeira vez teria um escritório para trabalhar. Não era um cômodo muito grande mas dava para armar ali a minha tenda de reflexões e leitura: uma escrivaninha, um sofá e os livros. Na parede da esquerda ficaria a grande e sonhada estante que caberia todos os meus livros. Tratei de encomendá-la a seu Joaquim, um marceneiro que tinha oficina na rua Garcia D’Avila com Barão da Torre.

O apartamento não ficava tão perto da oficina. Era quase em frente ao prédio onde morava Mário Pedrosa, entre a Farme de Amoedo e a antiga Montenegro, hoje Vinicius de Moraes. Estava ali há uma semana e nem decorara ainda o número do prédio. Tanto que, quando seu Joaquim, ao preencher a nota da encomenda, perguntou-me onde seria entregue a estante, tive um momento de hesitação. Mas foi só um momento. Pensei rápido: “Se o prédio do Mário é 228, o meu, que fica quase em frente, deve ser 227. “Mas lembrei-me de que, ao ir ali pela primeira vez, observara que, apesar de ficar em frente ao do Mário, havia uma diferença na numeração.

— Visconde de Pirajá 127 — respondi, e seu Joaquim desenhou o endereço na nota.

— Tudo bem, seu Ferreira. Dentro de um mês estará lá sua estante.

— Um mês, seu Joaquim! Tudo isso? Veja se reduz esse prazo.

— A estante é grande, dá muito trabalho… Digamos, três semanas.

Contei as semanas. Não via chegar o momento de ter no escritório a estante sonhada, onde enfim poderia arrumar os livros por assunto e autores. E,mais que isso, sentir-me um escritor de verdade, um profissional, cercado de livros por todos os lados. No dia da entrega, voltei do trabalho apressado para ver minha estante.

— Como é, veio? — perguntei ao entrar.

— Veio o quê?

— Como o quê? A estante!

Não viera. Seu Joaquim não cumprira com a palavra empenhada, ah português filho de… Telefonei para ele sem dissimular, no tom da voz, minha irritação. E ele:

— Como não cumpri? Andei com dois homens de cima para baixo da rua e não encontrei o tal número que o senhor me indicou. Não existe na rua Visconde de Pirajá o número 127, senhor Ferreira.

Fiquei sem ação. Dera a ele o número errado.

— Diga-me o número certo e sua estante estará em sua casa amanhã mesmo.

Fiquei sem palavra. Se não era 127, qual número seria? Não era 227, disso
tinha certeza… E o Joaquim ao telefone:

— Qual o número, seu Ferreira?

— É 217, seu Joaquim… É isso, 217.

— Muito bem, 217. Já anotei. Amanhã terá sua estante.

Não tive. Ao chegar em casa e verificar que a estante não estava lá, conclui que havia dado de novo o número errado ao marceneiro. E corri para o telefone a fim de me desculpar.

— Seu Joaquim, é o senhor Ferreira… da estante.

— O senhor está querendo brincar comigo?

Fui tomado por um frouxo de riso, enquanto seu Joaquim, indignado, dizia que não ia mais entregar estante nenhuma, que eu fosse buscá-la, pois já era a segunda vez que subira e descera a Visconde de Pirajá, carregando aquela estante enorme, etc. etc…

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