Pacotes brancos [Madô Martins[

Posted on 02/12/2016

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Madô Martins*

Não entendo nada de futebol. Não sei nada sobre os campeonatos, não conheço os uniformes dos times e, muito menos, o nome dos jogadores. O pouco que sei do esporte é através das notícias requentadas dos jornais, no dia seguinte aos jogos, mesmo assim, raramente me chamam a atenção.

Naquela noite, zapeava à procura do que assistir na tevê, quando vi uma equipe de jogadores que se preparava para uma disputa fora de casa. Pensei em quanto aquela moçada viajava e quanto – mais do que o alegado cansaço – enfrentava o risco de tantos voos. Mas foi uma reflexão rápida, maternal e consequente de uma febre que me atormentava.

Na manhã seguinte, achando que podia estar com dengue por causa dos sintomas que já duravam seis dias, fui ao Pronto-Socorro. Enquanto esperava atendimento, notei algo diferente no programa matinal que a tevê nos impunha. O som estava baixo demais para se supor exatamente o que e onde acontecera. Mas as imagens do avião destruído davam a certeza do grave acidente. Aos poucos, as peças iam se encaixando. O desastre era apesentado por um locutor esportivo, logo, teria envolvido atletas.

Comecei a prestar mais atenção, a partir do comentário da mocinha da recepção: “O goleiro morreu”. E as legendas completaram o quebra-cabeça, fazendo-me lembrar dos Mamonas Assassinas, de Ayrton Sena, Chico Science, também desaparecidos trágica e precocemente.

Desta vez, a morte levou ídolos em botão, rapazes quase anônimos, de um time modesto, que iam experimentar pela primeira vez o orgulho de disputar um campeonato internacional, mas não chegaram ao destino. Aquele avião esfacelado era o símbolo do sonho interrompido, logo agora, quando estamos tão precisados de novos sonhos e nossas asas, como aquelas, por um golpe de azar, de repente se partiram.

Na lista de 70 e tantos mortos, 19 atletas chapecoenses, o técnico e diretores do time, jornalistas. Deles, só conhecia Mário Sérgio, ex-jogador, ex-técnico e então comentarista da Fox. Todos reduzidos a pacotes depositados junto aos destroços, brancos como a paz que até quem não faz parte da torcida deseja que encontrem do lado de lá.

Volto para casa com a boa notícia de que não tenho dengue. Mas o dia não está para alegrias. Enquanto o ônibus desliza pela avenida chuvosa, penso nas famílias, namoradas, amigos dos desaparecidos, na perda que alterou para sempre tantas vidas, na dor que vai custar a passar. A janela molhada me deixa ver a Praça das Bandeiras, onde ficam hasteados pendões de todos os Estados e, no mastro maior, a bandeira do Brasil. Todas estão a meio-pau.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

 

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Posted in: Crônicas