24 Horas no Rio [Carlos Castelo]

Posted on 30/11/2016

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Carlos Castelo*

Primeiro sentei no avião ao lado do Luiz Fernando Guimarães. Está bem rechonchudo ele, mas foi muito simpático, me ajudou até tirar a mala da esteira. No banheiro urinei ao lado do Zeca Pagodinho. “Cerveja é foda”, comentou por cima da paredinha.

Indo pro hotel dividi o Uber Pool com a Carolina Dieckmann, atenciosíssima e muito elegante.

Fazendo o check-in tive que emprestar minha caneta ao Antônio Fagundes, a dele tinha acabado a tinta.

Almoçamos em Ipanema, no restaurante baiano do Pepeu Gomes, que nos serviu em pessoa.

À noite assisti Doutor Estranho ao lado do Boni no cinema de um shopping da Barra. Dividimos uma pipoca.

Voltei pro hotel de carona com o Fred, falamos sobre a renovação do futebol. Estava quase dormindo quando bateram na porta do meu quarto.

Era a Fernanda Montenegro. Desculpou-se pelo engano e saiu suave e gravemente pelo corredor.

No voo de volta a São Paulo, a Preta Gil pediu pra ficar do meu lado. Está bem rechonchuda ela, mas foi muito simpática.

No mais, o Rio é um anonimato só.

Além disso, é claro, há a questão da falência do município. A cidade é linda, a beleza disfarça bem o que acontece em seus intestinos, mas chega uma hora em que fica difícil remendar o miserê. Se não começarem a cobrar entrada em praia, como fazem na Itália e na França, a saída vai ser pegar os atores globais, veicular um informercial e tentar vender a Cidade Maravilhosa pra Dubai.

Se isso acontecer, na qualidade de letrista, cedo os direitos desse mal traçado jingle para a campanha.

AQUELE REPASSE

O Rio de Janeiro já está falindo
O Rio de Janeiro, como está devendo
Um rio de dinheiro, vai quebrar em março
Alô, alô, capital Manda um repasse!
Alô, Banco Mundial
Manda um repasse!
Governo continua
Gastando a poupança
E demitindo a moça
E devendo à massa
E continua dando
As ordens no poleiro
Alô, alô, Michelzinho
Manda dinheiro
Alô, alô, Henriquinho
Tu que é banqueiro
Alô, alô, Michelzinho
Tá um impasse
Alô, alô, Henriquinho
Manda um repasse!
Alô, Marcelo Crivella
Manda um repasse!
Todo mundo na favela
Quer um repasse
Nem no mês de fevereiro
Tem mais alface
Alô, BNDES
Manda um repasse!
Meu caminho pelo mundo
Tá um embaço
Agiota já me deu
Muito cansaço
Quem sabe daqui sou eu
Manda um repasse!
O credor não me esqueceu
Manda um repasse!
Olha o despenhadeiro
Manda um repasse!
Todo o povo brasileiro
Quer um repasse!

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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