Alice através do provador [Daniel Russell Ribas]

Posted on 28/11/2016

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Daniel Russell Ribas*

Alice acordou com os gritos da mãe, Eloísa. “Tem um ladrão em casa! Ele levou minha gata! Cadê a Carolzinha?” Ela correu até o quarto dela, manteve a calma e a olhou com carinho, segurando de leve seus braços. “Mãe, não tem ladrão aqui. A gata já morreu há 2 anos.” Eloísa pergunta por sua avó, se ela dormiu bem. Alice está acostumada. Há mais tempo do que ela gostaria, a doença tocou sua mãe e começou a devorá-la aos pedaços: sua memória, seu corpo, sua independência. Era uma criança desorientada e assustada num corpo idoso. Alice, ao contrário, precisou envelhecer aos 26 anos.

Verificou a fralda geriátrica, para se certificar de que estava limpa. “Quer que eu fique um pouquinho com você?” Encarou o relógio. Quase 6 da manhã. Logo, teria que preparar a refeição da mãe, se arrumar para a faculdade, aguardar a amiga da igreja que cuidava de Eloísa enquanto Alice estava fora e torcer para que não houvesse atraso no trajeto de 2 horas de sua casa em Morro Agudo, centro de Nova Iguaçu, até a universidade na Gávea, na Zona Sul carioca. Após a aula, iria para o trabalho de meio expediente em um restaurante de saladas num shopping na orla e retornar para casa. Fecharia a noite cuidando da mãe e estudando para o dia seguinte. Dormia normalmente 4 horas por dia. Às vezes, esticava meia hora. Cansaço se tornara tão natural para ela quanto o ato de respirar. “Quero.”, pediu Eloísa. Alice deitou a mãe e a abraçou, sentada no chão. Se cochilasse, poderia perder a hora ou algo pior.

Assim que Eloísa se adormeceu, Alice foi cozinhar, guardar a comida, escrever os avisos com os horários dos remédios e da refeição, tomar banho, se vestir, preparar a mochila, estudar e fazer café. A amiga da igreja chegou enquanto ela comia um pão com manteiga e lia sobre bens complementares, que podem ser consumidos em proporções mais ou menos fixas. “Desculpa o atraso, Alice, é que tou com essa dor nas costas, sabe, que tá matando. Quase não vim.” “Imagino”, respondeu e constatou que chegaria depois do início da primeira aula. “Preciso ir, a gente conversa na volta”.

Enquanto seguia para a estação de Comendador Soares, sentiu o calor mais intenso. As ruas cinzentas e cimentadas e o comércio em alto e bom som eram velhos conhecidos e serviam como despertador final. O dia começou. Pegou o trem lotado que a levaria até a Central do Brasil. Em meio a apertos, odores e barulhos, tomava cuidado com sua mochila e eventuais mãos que fossem, por algum acaso, “encontrar” partes baixas de sua anatomia. Pensava nas cópias dos trabalhos de faculdade, na roupa que obrigada a usar no trabalho e, à distância, sua mãe. Será que ela era bem tratada em sua ausência?

Em meio ao mar de formigas operárias soltas ao sol, Alice pegou o metrô que a levaria até o ônibus que pararia em frente à universidade. Chegou na metade da aula. Anotou diligentemente o que foi dito, pegou o resto com os colegas. Em cada uma das aulas, fez questão de ter uma postura ativa, como sempre. Além de espantar o cansaço que se insinuava, tinha tão pouco espaço em sua rotina para estudar que não tinha tempo a perder. Gostava de Administração e de alguns colegas. Sentia-se diferente da maioria dos alunos e, às vezes, o desejo de ter tido o conforto material e espiritual que aparentavam possuir. Não era inveja, mas um “E se fosse de outro jeito?…”

A tarde proveu uma iluminação alaranjada enquanto almoçava no ônibus em direção ao trabalho. Apesar de ter um empréstimo estudantil, as despesas com a doença da mãe e a casa a obrigaram a buscar outra fonte de renda. O sol abatia sobre o que parecia ser um dia preguiçoso. A serenidade exterior combinava de forma inusitada com sua estabilidade mecânica. Chegou ao shopping, entrou no restaurante, trocou-se e assumiu o caixa. O sorriso e o jeito cordial mascaravam seus pensamentos caóticos. Precisaria arrumar um tempo para procurar um estágio em sua área, mas Como?  Talvez se perdesse parte da aula final, teria como ir às entrevistas. E, de preferência, às quintas-feiras, quando folgava.

Já era quase 8 da noite quando saiu. Precisou ir ao banheiro, do outro lado do andar. Quando saiu, um vestido em uma vitrine chamou sua atenção. Entrou na loja. Ignorada, procurou por uma vendedora. Na terceira tentativa, apontou à roupa e afirmou que gostaria de experimentar. A funcionária, secamente, informou o preço. Imediatamente, ela achou caro. Por outro lado, só queria ver como ficava, pois não teria condições de levá-lo. Com um olhar indiferente, recebeu a peça e a experimentou no provador. Olhou-se no espelho e notou o cabelo que achava descuidado, as olheiras que aumentavam e a forma física indesejada. Aquele vestido, por mais belo que fosse, combinava com uma memória distante. Encarou-se por um tempo em que determinou sua mudança do corpo de uma menina com futuro para uma mulher que vive o presente. Era uma prova física da impetuosidade do destino sobre os sonhos de independência dos seres humanos. Como as circunstâncias nos tornam indefesos e desorientados. Uma sensação de temor lhe invadiu. A voz da vendedora quebrou o transe, perguntando se ela demoraria mais. Saiu em seguida, entregou a roupa e desejou boa noite.

Ao chegar em casa, a amiga avisou que não viria amanhã. Alice agradeceu e disse que daria um jeito. Olhou a mãe, que sorriu. Em seu olhar, o reconhecimento. Eloísa perguntou “Como foi seu dia, minha filha?” Alice, feliz, respondeu: “Ótimo, mãe.”

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas