Na segunda lâmina do espelho [Alexandre Brandão]

Posted on 27/11/2016

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(Imagem: Átila Roque)

Alexandre Brandão*

Eu tenho medo de tigres — medo que não me protege de nada, não ando onde andam os tigres. Nem entre elefantes — e destes não tenho medo. Amo elefantes e tigres sem precisar andar no meio deles. Medo, de verdade, cotidiano, eu tenho é de lagartixa, vai entender isso. Mas igualmente amo as lagartixas, tão importantes no controle dos insetos. Não uso repelente, preciso das lagartixas, mas, por temê-las e sem deixar de amá-las, delas não gosto.

Eu enfrento a escuridão, desde criança eu a enfrento. Quando transito por uma escuridão de verdade, não por uma metáfora das trevas, posso manter os olhos fechados ou abertos, é indiferente. No dia em que morre alguém do meu afeto, caminho de olhos abertos pela escuridão, certo de que, assim, só verei o que estiver vivo. Não quero encontrar os mortos, embora deseje muito reencontrar os meus mortos. Nalgum dia.

O jogo que gosto é o pingue-pongue, cuja bolinha nunca está ali nem está lá, embora às vezes ela caia à minha esquerda, às vezes do lado oposto. Quem sabe da vitória e da derrota são os jogadores, a torcida sabe da bolinha, que não está ali, mas ali já esteve, e não está mais lá, ainda que lá já tenha estado. Eu sou a bolinha. A raquetada é a vida.

Quando assobio, salvo ao menos um gomo de cana. Quando chupo cana, os pássaros pialham de alegria. Nas horas em que nem assobio nem chupo cana, o que faço ou deixo de fazer é feito um vento no canavial, e um vento no canavial, cante ou não cante um pássaro, é um vento no canavial, nada além disso, como diria Caeiro.

Nunca andei num relógio, mas um amigo sim. Ele rejuvenesceu uma hora, por caminhar em sentido anti-horário, e, pelo mesmo motivo, envelheceu uma vida. De minha parte e por destino, só envelheci uma vida. Ele morrerá uma hora mais moço que eu.

A única certeza que tenho é que não me chamo Raimundo. Com isso, atravesso as ruas e peço um pingado no botequim. Não é pouca coisa, mesmo que o pingado seja servido frio ou que eu quase tropece num descuido da rua.

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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Posted in: Crônicas