Invasão de privacidade [Luís Giffoni]

Posted on 26/11/2016

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Luís Giffoni*

Um número desconhecido me incomoda no início da tarde. O DDD é 048, algum lugar de Santa Catarina. O rapaz se identifica como preposto de um banco, diz rapidamente que a conversa está sendo gravada e começa a oferecer um produto. Peraí, eu contesto, se a conversa está sendo gravada, não é coisa boa para mim. Do contrário, por que você a gravaria? Não o conheço, não sei o que me oferecerá, mas você quer ter meu compromisso. A gravação será a prova. Enfim, eu que nada devo ao banco até agora, posso ficar enrascado nalguma jogada para a qual você foi bem treinado para me atrair. “Passar bem” – e desligo o telefone.

O celular toca outra vez, é o mesmo número catarinense, não atendo. Dali a minutos, outra insistência. Irritado, peço ao dito cujo não me incomodar. Ele tenta puxar conversa, menciona mil vantagens para mim, desligo.

Nem bem me livro dele, sou hackeado pela empresa em que tenho celular. Ela planta na telinha uma quase exigência para que eu digitalize minha conta e a baixe todos os meses na hora do vencimento. Não quero isso, prefiro receber a cobrança impressa, em casa, mas não consigo apagar a mensagem. A única opção que me sobra para destravar meu aparelho é “aceitar”. Desligo o celular por dez minutos, e me livro da invasora. Aliás, já fui algumas vezes ao seu escritório central pedir o detalhamento de minha conta. A resposta foi um total desconhecimento de minhas solicitações. Para quem não sabe, empresas de telefonia já foram flagradas com seus medidores de impulsos em ritmo acelerado, o que obviamente as beneficiava. Quando em crise, para aumentar o faturamento, a taquicardia se torna mais provável.

Em seguida, recebo um aviso: acabo de fazer uma compra no Chile de quase 500 dólares norte-americanos. Meu cartão foi clonado. Ligo para a administradora. Depois de quase uma hora de conversa, ainda tenho que encaminhar um email nas próximas 48 horas, nos termos que eles exigem.

No início da noite, torno-me vítima outra vez. Recebo uma enxurrada de telefonemas e mensagens com promoções de Natal, ofertas imperdíveis, descontos maravilhosos, Black Fridays para nenhum consumidor resistir. A conversa é a mesma: estão me fazendo o enorme favor de indicar artigos por preços tão baixos. A gerente do banco de uma amiga também me chama. Amável, quer me tirar dinheiro de alguma forma, do empréstimo a juros mensais iguais aos que a caderneta de poupança remunera em um ano ao cartão de crédito com juros ainda mais extorsivos. Só me faltou o telefonema de uma financeira para “negativados”, o que quer que seja isso. A caixa de spam tem mais de 1000 ofertas imperdíveis.

A invasão de privacidade é uma praga no Brasil. Já reclamei em agências federais, reclamei das empresas, reclamei dos agentes. Nessa hora, fingem que não existo.

O telefone toca de novo. Ouço a voz de um garoto que me diz: “Papai, me sequestraram!! Me sequestraram, papai!!!!” Finjo desespero: “É você, Marquinhos?” “Sim, papai, sou eu”. Nesse golpe não caio mais. Não tenho nenhum filho chamado Marquinhos. Desligo. Por hoje chega!

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações como do Prêmio Jabuti de Romance, da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, Prêmio Minas de Cultura, Prêmio Nacional de Romance Cidade de Belo Horizonte

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Posted in: Crônicas