O espírito da coisa [Rubem Penz]

Posted on 25/11/2016

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Rubem Penz*

E o Thales tirou seu próprio nome no papelzinho do amigo secreto, pensou em devolver, vacilou, olhou em volta para seus pares, lembrou que ganhara um relógio-ursinho comprado em loja de R$1,99 no ano anterior, e guardou o papel no bolso. Quieto.

E o Joel mexeu com força no saco plástico que a Patrícia trazia nas mãos. Tirou, também, seu próprio nome. Riu por dentro ao pensar: vou bagunçar as coisas este ano, cansei de ser o Joãozinho do Passo Certo, quero ver o que vai dar. Guardou o segredo para si.

E o Antônio Carlos, igualmente, leu o próprio nome no papelzinho do amigo secreto. Pensou nas probabilidades baixas de isso acontecer e, escolado de tanto bullying, achou que todos os papéis tinham seu nome. Pensou, pensou, e decidiu ficar com ele sem falar nada.

E Adelaide viu que restavam só três papéis.  Tirou seu próprio nome com algum alívio: já havia esgotado sua imaginação para escolher quinquilharias em R$1,99 (o limite fora um ursinho-relógio) e, este ano, teria a oportunidade de presentear-se, enfim. Desde que o outro não se denunciasse.

E, entre os dois papéis finais, Ana Maria retirou seu próprio nome. Chegou a tomar fôlego para acusar o fato, mas, mais inteligente que a média, pensou: como ninguém disse que tirou a si, isso significa que o outro papel tem a sonsa da Patrícia. Deixa que ela estrague o jogo.

E Patrícia, que todo ano realizava o amigo secreto porque naquele escritório ninguém movia uma palha mesmo, um bando de acomodados, uns inúteis que só pensam em comer bolachinha recheada com chá de hortelã ou frutas vermelhas, nem se preocupou em olhar quem nesse ano caíra para ela. Guardou o papel no bolso – veria só em cima do laço e estava mais do que bom.

E todos estavam estranhamente felizes naquela manhã. Tanto quanto jamais estiveram. E se olhavam e sorriam e guardavam seus segredos. E Patrícia, papel no bolso, sentiu-se reconhecida nos esforços de união, enfim. E creditava o fato ao Espírito do Natal.

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* Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é publicitário, escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis) e “Enquanto Tempo” (BesouroBox). Desde 2008 ministra oficinas de literárias, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, a qual alcançará dez antologias em 2016. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas