Doces pensamentos [Daniel Cariello]

Posted on 23/11/2016

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Daniel Cariello*

Ia distraído pelo Eixinho quando passei por uma minivan que ostentava dizeres garrafais em sua porta traseira: “Atenção: transporte de bolos”. Surpreso, desacelerei e me posicionei atrás dela, só para ter certeza de que o texto era aquele mesmo. Era.

Em minhas duas décadas de volante, já havia visto automóveis com frases como “Mantenha distância: valores” ou “Cuidado: combustíveis”, mas essa era a primeira vez que cruzava com um “Atenção: transporte de bolos”. Então fiquei pensando que um veículo desses merecia ter pista livre à frente.

Em um átimo (sempre quis usar essa palavra, átimo, e agora consigo, não é ótimo?), viajei para um mundo sem ganância e sem individualismo, onde não precisaríamos de mais carros-fortes cheios de dinheiro, com janelinhas minúsculas pelas quais passem apenas olhares vigilantes e canos de fuzis de quem está lá dentro, levando mais grana para quem já tem muita. Nem de caminhões de gasolina atravessando a cidade, pois os combustíveis seriam desnecessários em ruas dominadas por bicicletas e transporte público elétrico.

Nesse lugar, o bolo teria prioridade sobre a bolada. E os tipos caseiros, feitos à mão pelas avós, seriam os bens mais preciosos de todos. Principalmente se tivessem uma grossa camada de chocolate e fossem servidos ainda mornos, com a cobertura escorrendo.

No reino da utopia, as reuniões importantes ocorreriam na hora do lanche, em torno de um floresta negra ou de uma torta alemã. E as decisões deveriam ser tomadas antes do fim da última fatia da iguaria, sob pena de serem declaradas complicadas demais para valer a pena.

O triunfo da combinação de farinha, leite, ovos, manteiga e recheios seria a confirmação de que havíamos finalmente percebido que não precisamos de muito para ser felizes. No máximo, de um café para acompanhar os quitutes e ver a vida passar no ritmo que ela deveria ter.

Fui seguindo aquele carro, para ver aonde ia, até que o telefone tocou. Era um colega com quem tinha um compromisso, para o qual já estava trinta minutos atrasado.

– Ô, rapaz, cadê você?
– Tô indo.
– Vê se não vai me dar o bolo.
– Olha, até que não seria uma má ideia.
– Hã?
– Nada, nada…

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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