A mão que molha as outras [Guilherme Tauil]

Posted on 22/11/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil* 

Há gente que nasce para brilhar e gente que nasce para suar. Falo da hiperidrose, uma doença que faz o sujeito transpirar mais do que deve, geralmente em algum ponto específico. É disfunção biológica, mas podia ser maldição divina. Eu e mais 1% da população temos as mãos sempre molhadas. Não há lencinho que resolva, e esfregar a palma na calça pode secá-la por alguns segundos, mas continua sempre gélida, como se acabássemos de raspar o freezer.

Imagine o que é atravessar a infância com mãos úmi­das. A criança, embora conviva com todo tipo de fluido, não perdoa. Qualquer besteira é oportunidade para fa­zer o coleguinha se sentir mal. Um amigo, que sempre levava consigo uma toalhinha no bolso, virou o lendário Homem Toalha. Até hoje, quando encontra seus compa­nheiros de escola, escuta a vinheta de super-herói que criaram para ele.

Entregar a folha da tarefa toda amassada, com a tinta invariavelmente borrada, contribuiu para meu ímpeto de ligar pouco para o que dizem. Porque muitas professoras sem coração alegavam falta de capricho para me tirar nota. Espero que estejam felizes com os décimos que me comeram. Quem sabe investiram em alguma poupança educa­cional e hoje têm alguns dez para distribuir, apesar da crise.

Dar as mãos aos coleguinhas, fazer roda e rezar o pai-nosso, para nós, era aturar a cara de nojo dos amigos, o que tem duas consequências possíveis: ou o hiperidrótico en­cana e passa o resto da vida pedindo desculpas, ou supera e entende que viver em sociedade é isso mesmo, conviver com o bafo, os cacoetes, a chatice e o suor dos outros.

Com o tempo, desenvolvemos prática. Apliquei toda a minha experiência tática na operação engenhosa que foi preencher o cartão de respostas do vestibular. Com a régua, prendi o papel à mesa e, segurando a ponta da caneta com dois dedos, rabiscava o quadradinho correto. Se uma gota ameaçava se entregar à gravidade, interrompia o processo e secava a mão no moletom.

De outras coisas, porém, é preciso abdicar. Devo ter desistido de tocar violão com receio de enferrujar as cor­das de aço. Jogar videogame em grupo só se envolver o controle com a camiseta. Abrimos mão da gramática nas mensagens de celular porque tela touchscreen e parede de concreto são a mesma coisa para nós.

Por sorte, há sempre alguém para nos recomendar cal­ma, dizer que é tudo psicológico. Esquecem a biologia e as glândulas que funcionam mal. Foi o que me disseram quando, na entrevista de emprego, precisei decidir se aper­tava a mão do meu futuro chefe. Apertei – o importante é demonstrar firmeza, mesmo que escorregadia.

Mas o primeiro desafio real é, naturalmente, o amor. A hiperidrose difi­culta esse momento importante que é segurar a mão do par no cinema pela primeira vez. Quando a coisa não progride muito, avançar um dedo tímido de encontro aos outros é fatal. Mas a resposta pode ser cruel. No lugar de um recon­fortante suspiro, quem sabe, um susto gélido.

A única vantagem, permita-me dizer, é a mão constan­temente hidratada. Não precisamos de creme, que resulta numa experiência lodosa. Pensando bem, tem outra coisa: a hiperidrose me fez uma pessoa mais afetiva. Para evitar molhar mãos alheias, passei a abraçar com mais frequência. E ainda me tomam por carinhoso. Mão fria, coração quente.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas