Quase verão [Madô Martins]

Posted on 18/11/2016

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Madô Martins*

O menino cava na beira d’água. Larga por instantes a pá, distraído com seu castelo de areia. Como em  As férias de M. Hulot, a maré leva a ferramenta de brinquedo pela esquerda e, sem que ele perceba a perda, a devolve pela direita. Poucos metros adiante, um prato raso de plástico, onde deve ter sido saboreado milho debulhado, rola de pé, soprado pelo vento, e percorre como roda de bicicleta um bom trecho da praia, sem ser interrompido.

Os termômetros já marcam 30 graus em alguns dias, chove com trovoadas nas tardes abafadas, o Noroeste resseca tudo à volta, ventiladores e aparelhos de ar condicionado começam a funcionar, mas o humor muda para melhor, sabendo que falta pouco para a estação mais alegre do ano.

Estendo o arrastão do olhar pela cidade, à procura de seus sinais. E eles já estão em toda parte. No gramado da orla, jardineiros da Prefeitura plantam brotos de árvores que, em outros verões, nos darão sombra nova. Chuveiros e lava-pés, refeitos da última ressaca, oferecem água outra vez. Também os quiosques de coco, aos poucos, recuperam o movimento perdido nos meses frios.

Na hora preguiçosa de depois do almoço, um biguá nada calmamente nas águas do Canal 4, qual cisne no lago. Horas mais tarde, o filho me envia pelo celular a foto de um arco-íris que daqui não consigo ver. E no início da noite, um pouco mais morena e banhada pela lua – promessa de sol para o dia seguinte -, ouço a primeira cigarra da temporada.

Viver é bom. No verão, será mais ainda.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas