A embaixatriz de Nova Iorque [Carlos Castelo]

Posted on 16/11/2016

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Carlos Castelo*

Se alguém falar Maranhão é claro que todos vão se lembrar de Sarney e de inflação. Eu talvez seja a única pessoa que, ao ouvir o nome desse estado, se lembre da mãe e de Manhattan.

Dona Irací nasceu na cidade de Nova Iorque, só que a do Maranhão. Quando emigrou do Meio Norte para o Sul Maravilha foi ao Banco do Brasil depositar as parcas economias que havia trazido costuradas na anágua. Mostrou com timidez o RG ao atendente, que bateu os olhos no campo “naturalidade”, e leu: “Nova Iorque-MA”.

Em seguida foi correndo chamar o gerente. Este chegou muito solícito e disse a ela:

– What can I do for you?

Mamãe estranhou e lhe explicou que era tão brasileira quanto ele. O gerente apontou para o campo “naturalidade” e fez uma correção:

– Mas aqui está escrito que a senhora é de Nova Iorque-MA, ou seja, é de Massachussets…

Fui educado em São Paulo desde os três anos de idade. Estudei no Colégio Bandeirantes, uma espécie de Princeton do ensino médio. Mas confesso que aprendi muito mais com Dona Irací do que com todas as aulas do vetusto colégio.

Os aforismos que escrevo nas redes sociais, só pra dar um exemplo, de forma indireta foi minha mãe quem me ensinou. Sempre havia uma máxima na ponta de sua língua para explicar qualquer situação.

– Filho se cria assim: com uma mão se dá, com a outra se tira – apregoava durante toda minha infância e adolescência.

E seguiu o ditado com grande firmeza. Como quando fui apanhado por ela fumando aos 16 anos. A reação foi surpreendente:

– Fume, meu filho. Acho lindo aqueles atores de Hollywood pitando. Isso é um “it” pros homens. Mas é só pra fumar comprando as carteiras de cigarro com o SEU dinheiro, não sabe?

Essa foi a parte do “com uma mão se dá”. A da “com a outra se tira” foi que a mesada foi cortada.

Paradoxalmente, Dona Irací sempre foi uma contradição ambulante. Quem via aquela mulher delgada e frágil, vira e mexe às voltas com enxaquecas terríveis e tomando Metiocolin B12 para toda e qualquer enfermidade, não calcularia do que ela era capaz.

Certa feita, quando morávamos no Sumarezinho, presenciei uma cena inenarrável. Voltava do colégio e descia a pé a Engenheiro Francisco Azevedo onde ficava nosso sobrado.

Logo que adentrei na rua senti cheiro de fumaça e plástico queimado. Quando aprumei a visão percebi o salão de beleza que dona Irací frequentava em chamas. Corri para a frente do estabelecimento com intuito de ajudar as vítimas, mas lá já estava minha mãe retirando pela janela dúzias de mulheres histéricas pelos braços, pernas e até pelos cabelos.

– Tenha coragem, querida, me dê a mão! Santa Teresinha de Lisieux lhe protege: pule!

A cena toda não combinava em nada com a senhorinha com rodelas de batata por cima dos olhos nos momentos de crises de dor de cabeça.

Terminado o resgate desmaiou. E os bombeiros ainda nem tinham chegado. Muito justamente, o jornal do bairro deu destaque à heroína maranhense.

Esse ano dona Irací quebrou a barreira dos 85 anos. Chegou aos 86 com corpinho de 60 e os exames de sangue melhores que os meus.

Eu sei que, apesar dessa homenagem, ao revelar sua idade em público, corro o risco de ser chamado para uma conversinha semelhante a de meus tempos de tabagista-mirim.

Mas, se isso acontecer, Santa Teresinha de Lisieux vem pra me acudir.

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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