João e Maria [Rubem Penz]

Posted on 11/11/2016

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Rubem Penz*

Interessante: o termo representar denota tanto ser um procurador quanto estar fingindo. Significar (no sentido de ser igual) ou cumprir um papel (ser apenas o que foi determinado no script). Uma palavra, uma só palavra, e estamos na fronteira entre o muito legítimo e o absolutamente falso.

Daí me lembrei da nossa democracia representativa. Sempre acreditei que, em sua essência, estaria o primeiro sentido: a outorga de um mandato para que o eleito (um igual) decida por mim e meus pares os destinos da coletividade, o direcionamento dos impostos, os planos e estratégias para alcançar o bem comum. O cumprimento das leis. O entendimento entre discordantes. De fato, e de direito, isso acontece – lá estão os poderes executivo e legislativo nomeados com a legitimidade das urnas para moldar a coisa pública e gerenciar um quinhão bastante considerável de nosso suor.

Porém, estou ficando velho e notei que despendi as ilusões que trazia comigo tal como o menino João ao entrar na floresta com sua irmã: sementes para servir de guia, um rastro de segurança, surrupiadas às minhas costas por aves oportunistas, por corvos. Olho para os lados e vejo apenas um horizonte hostil, assustador. Olho atrás e não encontro o ponto de partida. Olho para frente e desconfio do futuro. Por que?

Uma hipótese que tenho considerado repousa no fato de a tal democracia representativa, tão almejada por quem já viveu num regime de exceção, estar repousada sobre o segundo sentido: os eleitos representam porque mentem. Mentem antes. Mentem durante. Mentem depois. Tanto mentem que passam, eles mesmos, a acreditar nas próprias mentiras. Atuam o tempo inteiro: há um script bem elaborado para consumo externo e, intramuros, agem conforme motivações inconfessáveis. Guindados por legítimos meios, exercem sua falsidade no limite do escárnio.

Se a desilusão é inevitável, resta-me a lucidez: um facão de aço e bem afiado capaz de abrir espaços transitáveis na floresta desencantada. Ainda não vejo a saída, mas cortei boa parte da desfaçatez, do cinismo e da falsidade que bloqueava o entorno. Perdi todas as ilusões, que fazer… Mas já não lamento. Que os corvos obesos e de mau agouro se alimentem de outras, das de outros. Guardei comigo a esperança, irmã. Ainda está com a sua?

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* Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é publicitário, escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis) e “Enquanto Tempo” (BesouroBox). Desde 2008 ministra oficinas de literárias, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, a qual alcançará dez antologias em 2016. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas