Caça e caçador discutem a relação [Marco Antonio Martire]

Posted on 09/11/2016

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(Imagem: Bendita Luz)

Marco Antonio Martire*

— Você vai me caçar aqui?

— É o que eu pretendo.

— Mas até aqui?

— Não vejo nada de errado com o local.

— Não é território de caça.

— Quem disse?

— Disseram.

— Disseram?

— Tá vendo algum outro caçador por aqui?

— Não mesmo, mas isso não quer dizer nada.

— Por quê?

— Tem muito caçador que se disfarça.

— Vai por mim, não há caçadores neste lugar.

— Então serei o primeiro.

— Primeiro não, primeiro é ruim.

— Ser o primeiro é muito bom.

— Vou te dizer uma coisa: ser o primeiro não garante nada.

— Como é?

— O pessoal vai rir de você.

— Não tem problema.

— Vão te odiar.

— Tudo bem.

— E te evitar na rua.

— Não acredito que façam isso.

— Um dia um caçador mais jovem tomará o seu lugar.

— Ele que venha.

— Quer arriscar?

— Sim, quero caçar aqui.

— Suponho então que você tenha a licença.

— Claro, demorou um tempão pra conseguir.

— E acha que vai se dar bem.

— Acho não, tenho certeza.

— Melhor eu ir andando então.

— Você tem meia hora.

— Só meia hora?

— Depois disso é cada um por si.

— Cuidará da minha família se eu perder esta briga?

— Não caço filhotes, prometo.

— Sei… então nossa amizade é isso?

— Tá demorando muito, o tempo está correndo.

— Uma última perguntinha…

— Fala.

— Se eu pagar, por quanto você arrega?

— Deixe-me ver, o preço é o da tabela.

— Mais o por fora.

— É claro! Você pensa que vive onde?

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Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

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Posted in: Crônicas