Autêntica deve reeditar crônicas de Campos de Carvalho

Posted on 09/11/2016

0



Pouca gente fala, mas, além dos quatro romances, o escritor Campos de Carvalho também escreveu crônicas. Quando se fala no “silêncio de Campos de Carvalho” depois de lançar “O púcaro búlgaro”, em 1964, se está igualmente ignorando as crônicas que escreveu depois disso, em 1972, para o Pasquim.

Esse material foi reunido sob o título “Cartas de viagem e outras crônicas” e publicado em 2006 pela José Olympio. Agora, o material deve ser reeditado pela Autêntica sob o título provisório de “O espantalho inquieto“, com previsão de lançamento em  2017.

A nova edição deve contar, além de crônicas, com entrevistas raras e a narrativa “Espantalho habitado de pássaros”, que saiu em uma coletânea em 1965, e o conteúdo será organizado pelo professor Noel Arantes.

Um humor corrosivo 

Embora seja a única produção do escritor no gênero da crônica, esta não é, nem de longe, uma obra menor. De fato, com as poucas crônicas que escreveu, já é possível inscrever o nome de Campos de Carvalho entre os escritores mais ousados e mordazes da crônica.

Sobretudo na primeira parte do livro, em que Campos de Carvalho escreve “cartas” para si mesmo de suas viagens a Paris e Londres. Poucas vezes o gênero abrigou um humor tão corrosivo, divertido e pouco preocupado com o politicamente correto.

Na segunda parte, estão textos mais “sérios”, discutindo temas mais próximos do universo dos seus romances, tendo como característica mais marcante a desesperança da condição humana.

Também essas suas crônicas, a exemplo dos romances, devem ser melhor conhecidas, sobretudo neste momento em que se comemora o centenário do escritor, nascido em 1916.

Confira algumas frases pinçadas de suas “cartas de viagem”: 

– O avião ainda é o meio de transporte mais rápido, sobretudo se está caindo.

– O francês é o sujeito que mais lê no mundo, o que prova que a leitura nunca fez bem a ninguém.

– O único defeito de Paris é ter parisienses, mas penso que isso acontece com os habitantes de todas as cidades.

– Em Londres há um jornal chamado The Sun; só sai duas vezes por ano.

– Quando querem se referir à rainha, aqui, falam sempre “A Coroa”, o que me parece um desrespeito.

– É tanto o frio aqui em Londres que a nossa geladeira é o lado de fora da janela, onde deixamos o leite, a manteiga, os ovos e a coalhada – que no dia seguinte vamos apanhar geladíssimos, isso quando conseguimos abrir a janela.

– Dizem que quando chegar o inverno você não avista nem o outro lado da rua, e muita gente já caiu no Tâmisa pensando que estava entrando num filme de Elizabeth Taylor.

– Tenho um amigo que ficou aqui três semanas e só conseguiu ver neblina, neblina, neblina: acabou indo ao oculista pensando que estava com catarata.

– Comprar cigarro em Londres é um drama: você tem que ir à Escócia.

– Dizem que o fog londrino desapareceu de uns tempos para cá, por motivos meteorológicos e outros que ninguém sabe ainda explicar: a verdade verdadeira é que o que desapareceu mesmo foi a fumaça dos cigarros e dos charutos.

– Preciso urgentemente voltar para o Brasil: ainda ontem eu quis dizer vitela e disse vaca moça.

– Continuo sendo atropelado toda semana – sempre pela esquerda, que aqui é a direita: só um canhoto consegue regressar são e salvo ao seu país, e assim mesmo ponho minhas dúvidas.

– O nosso sol é um exagero, reconheço, mas o daqui devia ter até vergonha de ser sol; a lua pelo menos tem cara de lua, você olha e diz “ali está a lua”, é como se fosse uma cidadezinha do interior do Brasil, para ela tanto faz ser Londres ou São Bento do Sapucaí.

– Deve ser horrível você ser casado com uma inglesa (aliás, deve ser horrível você ser casado de qualquer jeito)

Anúncios
Posted in: Crônicas